Dosimetria de prazeres

Cláudia de Marchi

No Direito usamos o termo dosimetria para definir o ato do juiz ao estabelecer a pena do acusado levando em consideração, num primeiro momento, as circunstâncias judiciais subjetivas, como a culpabilidade, os antecedentes, a conduta do agente, a sua personalidade e motivos da conduta delituosa. As circunstâncias objetivas, por sua vez, consideram as consequências do ato e o comportamento da vítima. Após, analisa-se as atenuantes e agravantes do crime. Por fim, na fixação da pena definitiva, levam-se em conta as majorantes e minorantes.

Com a descoberta da obra de Lucrécio, De rerum natura (Da natureza das coisas) por Poggio Bracciolini, em 1414, na qual, na abertura de seu terceiro livro, dedica-se a homenagear Epicuro, filósofo que, em um jardim ateniense, edificou toda uma explicação acerca do universo e da natureza humana para ajudar as pessoas a viverem de forma livre da superstição e apta à busca pelo prazer, a ética epicurista passou a colorir o período renascentista.

Em Carta a Meneceu (p. 14), Epicuro define o prazer como a ausência de dor no corpo e de problemas na alma, não como “uma sucessão ininterrupta de bebedeiras e de alegrias, não é amor sexual, não é o prazer do peixe e de outras iguarias de uma mesa luxuosa, que produz uma vida agradável; é o raciocínio sóbrio, procurando os fundamentos de cada escolha e abstenção, e banindo essas crenças através das quais os maiores distúrbios tomam posse da alma”, sendo assim, “a prudência é algo mais precioso até mesmo do que outras virtudes, pois uma vida de prazer que não é também uma vida de prudência, honra e justiça também não é uma vida de prazer.”

Eu desisti de casos amorosos, porque a alegria de certos momentos não compensava o desprazer de outros. O ápice de prazeres carnais ou, até mesmo, intelectuais, não compensa nem nunca irá compensar o desconforto anímico de estar onde não se deve estar, de tentar encaixar-se onde não há espaço para você. Consequentemente, é preferível encarar a dor da saudade e da ausência a viver se digladiando entre dores que nenhum prazer suplanta.

 Na vida, não podemos ter tudo. Quem acredita em soluções mágicas é idiota. Se você quiser ter um corpo magro, por exemplo, terá que se abster de comer tudo o que tem vontade na quantidade que a sua gula determina. Devem existir compensações, por exemplo. Eu tenho o mesmo manequim desde que saí da adolescência, já tive, após começar a advogar, fases nas quais fiquei mais magra do que o meu normal: foram períodos de muito estresse e ansiedade, porém, de regra, o meu corpo é o mesmo.

Em virtude da minha tendência genética a diabetes, eu não como doces quase nunca, uso adoçantes, não como frituras no cotidiano e, como gosto de vinho, diminuo a quantidade de comida quando bebo, ingiro mais proteínas do que carboidratos, isso sem falar da atividade física. Me considero fisicamente mais bonita agora do que era há duas décadas e amo esse fato, assim como amo o meu corpo. Entretanto, para tê-lo eu faço renúncias que já estão tão entranhadas em mim que nem as sinto. Enfim, em todas as esferas da nossa existência há necessidade de calcularmos se o prazer momentâneo compensa os seus efeitos futuros em nossa mente e, como dito acima, silhueta. A dosimetria dos prazeres é fundamental para termos orgulho de quem somos, tanto emocional como esteticamente