Violência contra mulheres não escolhe classe, nem fama

João Lima foi preso preventivamente após denúncia de violência doméstica – (crédito: Reprodução/Instagram)

A prisão preventiva do cantor João Lima, decretada neste domingo pelo Tribunal de Justiça da Paraíba, expõe um problema antigo e persistente no Brasil, a violência contra mulheres segue atravessando todas as camadas da sociedade, das casas anônimas aos bastidores da fama.

A denúncia partiu da esposa, a médica e influenciadora Raphaella Brilhante, que registrou boletim de ocorrência na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, obteve medida protetiva e apresentou imagens de agressão ocorrida dentro da residência do casal. Segundo os autos, o episódio envolveu socos, imobilização e tentativa de silenciamento. O caso teria começado ainda na lua de mel, em novembro, e se repetido semanas depois.

Nada disso é exceção. O que muda aqui é o sobrenome, o alcance nas redes e o entorno político. João Lima é neto de um nome histórico da música nordestina e filho de um cantor que ocupa cargo público no governo estadual. Essa rede de prestígio costuma produzir silêncio, relativização e, em muitos casos, proteção informal. Não desta vez. A Justiça agiu, ao menos neste momento, como deveria.

O Brasil convive com uma estatística que não choca mais, mas deveria. Mulheres agredidas dentro de casa, por parceiros, maridos, namorados. Quando o agressor é famoso, o roteiro é conhecido, tentativa de desqualificar a vítima, apelo à imagem pública do acusado, notas frias de assessoria, torcida organizada nas redes. Quando o agressor tem padrinho político, soma-se o constrangimento institucional.

É preciso dizer com clareza, fama não atenua violência, cargo público não confere salvo-conduto, sobrenome não reescreve fatos. A Lei Maria da Penha existe porque a violência doméstica foi por décadas tratada como assunto privado. Cada vez que o debate é desviado para a carreira do agressor, o talento artístico ou a biografia da família, o país anda para trás.

O caso de João Lima precisa ser tratado como crime, não como escândalo de celebridade. O foco deve permanecer na proteção da vítima, na investigação rigorosa e na responsabilização, doa a quem doer. E vale para todos, anônimos, influentes, políticos, artistas, empresários.

Enquanto houver complacência social e blindagem simbólica, a violência seguirá encontrando espaço. O recado precisa ser simples e público, ninguém está acima da lei. Nem no palco, nem no gabinete.