Sobre indulgência, abnegação e Balneário Camboriú

Cláudia de Marchi

As minhas tias veraneiam em Balneário Camboriú há mais de três décadas. Eu detesto aquela cidade, primeiro, porque não gosto de praias lotadas, segundo, porque a água é imprópria para banho e os prédios fazem sombra na praia, terceiro, porque é lugar para quem aprecia festas e eu abomino, aliás, conto nos dedos as noites em que sai de casa para baladas em toda a minha vida! Eu sou fã das praias de Florianópolis, como Cachoeira do Bom-Jesus, Daniela, Ponta das Canas e até Jurerê. Gosto de praias limpas e com poucas ondas para eu nadar e relaxar.

Depois de anos, sábado, eu e mamãe iremos encontrar minhas tias lá, no antro dos energúmenos da extrema-direita, na praia que eu não gosto com um povo que, em sua maioria, me causa ojeriza, gente que eu não gostaria sequer de saber da existência. Para além dos coliformes fecais da água há a mente apodrecida da maior parte dos habitantes do local. A praia e o povo daquela cidade formam um combo perigoso e fétido.

Ocorre que o amor é altruísta, não egoísta. Ele se revela na nossa preocupação com o outro, no nosso imenso desejo de ver-lhe bem, feliz e em paz consigo. O amor é indulgente e abnegado, não porque exista alguma “norma” religiosa ou moral a impor isso, mas porque ele não existe ou vinga sem indulgência e abnegação, sem compreensão, doçura e acolhimento.

Acho que a coisa mais linda que um ser humano pode dar para outro é a indulgência. Justificar, para si, o que pode ser considerado como falha alheia sem a existência de um pedido de perdão é o amor ao outro exercido magnanimamente. Eu te entendo e te perdoo, mesmo que não me peças perdão. Eu te aceito como és, mesmo que não requeiras o meu aceite. Eu te dou salvo-conduto para transitar em minha vida, apesar de qualquer mágoa ou dor.

É preciso muito amor para haver indulgência! Eu, quando amei, fui indulgente, exceto com o homem casado com quem me enredei e, de forma cruel e vingativa, expus um lado meu tão horrível que enrubesço de vergonha ao lembrar. Enfim, convém saber que nem todo mundo sabe amar, nem todo mundo vai nos amar, nem todo mundo vai nos fazer sentir amados. Nem todo mundo nos dará o amor que julgamos merecer e, para tudo isso, existe o desconfortável ‘adeus’, pois amor não se implora, não se mendiga. Ou há ou não há, não é tão simples na prática, mas é assim. Dói, mas não mata. Logo, onde não te sentires plenamente amado, não te demores. Viver é luta, mas, sobretudo, é luto: a cada dia uma nova perda, a cada dia um novo nascimento, a cada dia uma nova escolha.

Ah, a abnegação! Outra fundamental característica do amor: sacrificar-se um pouco para vermos quem nos ama felizes. Eu sou muito altruísta e generosa, faço tudo o que posso para ver quem eu amo feliz, alegre e contente. Exemplo do quanto o amor me faz doce é o fato de eu ir para Balneário Camboriú, apenas para divertir e alegrar as minhas tias. Para quem não sabe eu sou bastante divertida, meus ex-alunos diziam que, se eu fracassasse como advogada e professora, ganharia muito dinheiro fazendo comédia stand-up. Eu preferi ser cortesã e fazer alguns poucos afortunados sorrirem por outras razões.

Eu não sei amar sem entrega, sem doçura, sem generosidade e isso serve para toda forma de amor, do que sinto pelas minhas tias, extensões da minha mãe na minha vida, ao amor heteroafetivo e erótico. Tentando alegrar quem amo através da indulgência e da abnegação sinto um bem-estar áureo. Eu me rejubilo vendo a alegria de quem me ama e é, por mim, amado.