Cláudia de Marchi
Eu escrevo há uns anos para um jornal de circulação impressa em Passo Fundo. Ele representa resistência em relação a virtualidade e ao fascismo que nos espreita. O município no qual nasci tem fama de ter mulheres bonitas, eu prefiro dizer que se trata de uma cidade universitária em uma região predominantemente branca e abonada. A Universidade de Passo Fundo forma boa parte dos médicos e advogados da região, fala-se da beleza apenas das mulheres, porque ela é mais visível e ostentada com maquiagem, belas roupas e saltos. Eu mesma comecei a faculdade usando roupas discretas de academia e, em menos de um mês, estava usando salto e roupas elegantíssimas que fizeram eu “passar” dos 17 aos 30 anos. Felizmente, da maquiagem me mantive livre.
Passo Fundo, cidade do Teixerinha que, por sua vez, não nasceu lá. Na faculdade de Direito, décadas antes, se formou Cezar Roberto Bitencourt, advogado de Mauro Cid e jurista de quem eu mesma já fui fã. É a capital nacional da Literatura com uma maioria de pessoas que não lê. Cidade que fez uma “estáltua”[1] para o genocida! É provável que, nascida na cidade, num belo dia de abril, seja aquela advogada e professora universitária que virou cortesã em Brasília e foi notícia nacional e internacional. Ah, sou eu essa daí! Admirada e famosa por méritos realmente belos está a minha amiga e poeta fantástica Mar Becker, prefaciante de Caótica meu novo livro de crônicas que será lançado este ano pela editora Bestiário.
Eu cheguei ao mundo não querendo chegar, por isso cruzei as pernas. No mesmo dia, um pai financeiramente remediado pagou a cesariana da esposa e foi me registrar sem o sobrenome dela e, menos ainda, sem combinar a decisão. “Vai se chamar Cláudia de Marchi, chique, parece nome artístico!”, ele deve ter pensado. Não podia adivinhar que eu enfrentaria tantos perrengues profissionais e afetivos a ponto de ter tesão em dizer não para homem, pois em meu curto passado como acompanhante de luxo, poder humilhar bípedes portadores de falo limitados, machistas e carentes de fineza e sensatez era o que eu mais gostava de fazer, porém, sobre a minha revolução misândrica, escreverei em outro momento.
Eu poderia dissertar sobre o povo fascista da minha cidade natal, mas isso é problema pequeno diante do horror que estamos vendo ao redor do mundo: a ascensão descarada e reverência ao fascismo por parte das grandes empresas de tecnologia. Ontem, na posse do extremista de direita que os Estados Unidos elegeram presidente, Elon Musk fez a saudação nazista sem sequer enrubescer. Em meio a emergência climática e tal horror eu compreendo que, antes de nascer, eu já era intuitiva, razão pela qual cruzei as perninhas na barriga da minha mãe. Nunca em minha vida o fato de eu não ter colocado filhos no mundo me parece tão maravilhoso, tão correta, justa e bela decisão: seria de imenso egoísmo gerar uma vida neste planeta que o ser humano destrói um pouco a cada dia e a cada dia mais.
Ao fim de 2024 publiquei, no jornal Rotta, anteriormente referido, uma crônica falando que, através das pessoas seguidas por alguém no Instagram e outras redes, podemos saber quem é uma pessoa. “Diga-me quem tu segues e eu te direi quem és”, escrevi. Me explique a razão pela qual tu segues essa ou aquela pessoa e saberei quais são as tuas prioridades, teus gostos, teus anseios, tua forma de ser e de estar no mundo. Ora, não podemos fugir da realidade: as nossas redes sociais são uma extensão de quem somos, consequentemente, o conteúdo que apreciamos diz muito sobre quem somos aqui, no mundo real.
Aliás, para além de serem uma extensão de quem somos, as nossas redes sociais, o conteúdo que postamos e consumimos nos definem. Com raríssimas exceções, boa parte das pessoas usa o seu tempo livre para ficar nas redes assistindo vídeos, rindo de memes, admirando a figura que ganha num dia o que quem a segue não lucra em um ano ou em sua vida inteira.
No começo de dezembro de 2024, um ano extremamente pesaroso para quem viu de perto ou sentiu na pele o resultado da negligência com políticas ambientais e com a questão da emergência climática por parte de representantes populares negacionistas, o Dicionário Oxford categorizou como expressão do ano o termo brain rot (“cérebro podre” ou “podridão cerebral”). Não se trata de expressão inovadora ou desconhecida, mas hoje ela faz mais sentido do que em outros tempos e saber isso causa preocupação e tristeza.
A nossa sociedade não teve preparo cultural e psíquico para a evolução tecnológica que se tornou um mal (necessário?) para pais ausentes que se matam de trabalhar para conceder aos filhos objetos desnecessários e ostentarem o status de bem-sucedidos: a criança está agitada e inquieta? Dão-lhe o celular ou o tablet para ela se distrair. Logo, não é novidade que esses infantes e adolescentes passam mais tempo nas redes do que com a família.
Você que está aí lendo essa crônica, caso esteja em um local público, pare por um instante e olhe ao seu redor: a maioria das pessoas estão usando o celular, conversando com pessoas que não estão ali presentes. Em abril do último ano estive em Buenos Aires e cheguei a fotografar, num restaurante, uma família em que o casal manuseava seus telefones e as crianças, uma com cerca de 4 ou 5 anos e outra de 9 ou 10, faziam o mesmo.
Nos raros momentos em que mães e pais não estão trabalhando entregam aos filhos a possibilidade de interação virtual que pode ser perigosa não apenas pelo conteúdo hábil a apodrecer seus cérebros, mas também pelos chats e possibilidade de interação com pedófilos e toda sorte de criaturas humanas delinquentes. No entanto, não é só o cérebro da nova geração que vem se deteriorando: boa parte das pessoas adultas consome imbecilidades virtuais, um sintoma disso é a existência desnecessária de coaches e influenciadores digitais. Gente anônima que alça fama por besteira e dão aconselhamentos diversos para vários nichos de pessoas com base, unicamente, nas vozes das suas cabeças, porque arcabouço científico a maioria destas criaturas não têm.
Podemos até ser “homo”, mas “sapiens” a maioria não é. A favor da preguiça de pensar existe a inteligência artificial, salvando estudantes intelectualmente deficitários da vergonha total. As mulheres são bombardeadas por todo tipo de conteúdo voltado ao seu “aprimoramento” estético: andam por aí uma horda de criaturas siliconadas, plastificadas, com narizes e bocas fabricadas. Existem até coaches de sexo ensinando mulheres como agradar um homem na cama, isso em pleno 2025!
Você já parou para pensar se o conteúdo da musa fitness, das cantoras ou atrizes riquíssimas e outras pessoas lhe faz bem? Se aquilo que você vê é adequado para a sua realidade? Se acompanhar suas publicações não lhe causa ansiedade e sentimento de fracasso, por que você não pode viver da forma com que essas pessoas vivem? Se manter “amizade” com quem já não está na sua vida fora das redes lhe alegra?
Pense e repense. Às vezes deixar de seguir e até bloquear alguém pode ser uma revolução para o seu bem-estar, para a sua alegria. O ano está começando, convém rever a sua vida e, também, as pessoas e os conteúdos que você vem acompanhando. Tente salvar o seu cérebro do apodrecimento, porque Musk, Mark Zuckerberg e demais milionários neofascistas e nazistas não irão colaborar.
1 Eu me recuso a chamar aquele atentado à arte de estátua.