Quando até um par de sandálias vira ameaça ideológica

A atriz Fernanda Torres aparece num comercial da Havaianas dizendo algo simples, quase óbvio: não espere sorte, vá com os dois pés. Corpo inteiro, vontade inteira, decisão própria.

“Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não, não é nada contra a sorte, mas vamos combinar: sorte não depende de você, depende… depende de sorte. O que eu desejo é que você comece o Ano-Novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca, os dois pés onde você quiser. Vai com tudo, de corpo e alma, da cabeça aos pés”

É isso. Nenhum código secreto, nenhuma conspiração, nenhum ataque a valores morais, religiosos ou políticos.Ainda assim, setores da direita radical surtaram. Viram provocação onde não há. Ideologia onde não existe. Militância até numa sandália.

O nível do debate chegou a um ponto constrangedor. Uma metáfora sobre iniciativa pessoal vira ameaça. Um texto publicitário vira manifesto. Uma atriz vira inimiga. Não é análise crítica, é delírio.

A mensagem da campanha não poderia ser mais clara: agir é melhor do que esperar. Não é contra fé, não é contra crença, não é contra ninguém. É a favor da ação, da presença, da escolha. Algo que qualquer adulto funcional entende sem esforço.

Mas parte do debate público no Brasil já não funciona assim. Há uma busca obsessiva por ofensa, por inimigo, por guerra cultural em tudo. Até num comercial de fim de ano. Até numa frase sobre pés.

Isso diz menos sobre a Havaianas ou sobre Fernanda Torres e mais sobre quem reage assim. Quando qualquer estímulo vira ameaça, o problema não está na mensagem, está na fragilidade de quem escuta.

No fundo, o incômodo não é com a propaganda. É com a ideia de autonomia. De gente que decide, anda, erra, tenta de novo. Gente que não terceiriza a própria vida para slogans, líderes ou salvadores imaginários.

O comercial fala em ir com tudo. A reação mostra quem anda de ré.