Portela leva a cultura afro-gaúcha para a Sapucaí em enredo que resgata o Príncipe Custódio

Portela/Divulgação

A Portela entra na Marquês de Sapucaí neste domingo com um enredo que desloca o eixo tradicional das narrativas afro-brasileiras e coloca o Rio Grande do Sul no centro da avenida. Intitulado O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande, o desfile homenageia o Príncipe Custódio, o batuque e a ancestralidade negra do sul do país.

Com mais de três mil componentes, distribuídos em 25 alas, cinco carros alegóricos e uma bateria com 320 ritmistas, a escola pretende apresentar um Rio Grande do Sul distante do imaginário hegemônico associado à cultura europeia. A proposta é afirmar o Pampa como território também moldado pela presença e resistência negra.

A historiadora Fernanda Oliveira, professora da UFRGS e uma das autoras do enredo, destaca que o desfile é também uma intervenção simbólica. Segundo ela, a intenção é alterar a forma como o estado é percebido dentro e fora do país, ampliando o reconhecimento de suas raízes afro-gaúchas.

O legado do Príncipe Custódio

Figura central do enredo, Custódio Joaquim de Almeida nasceu no Benin e se estabeleceu em Porto Alegre no início do século 20, onde viveu até 1935. Sua trajetória é associada à consolidação do batuque no estado e à afirmação das religiões de matriz africana no sul do Brasil.

Na narrativa construída pela Portela, sua história é conectada ao orixá Bará e à lenda do Negrinho do Pastoreio, símbolos que representam espiritualidade, resistência e memória coletiva. O desfile também deve homenagear personagens ligados à luta negra no estado, incluindo nomes pouco reconhecidos fora de círculos acadêmicos e culturais.

Carnaval como espaço de disputa simbólica

Para os criadores, o desfile é mais do que uma celebração estética. É uma afirmação histórica. Ao colocar o batuque e a ancestralidade afro-gaúcha no maior palco do carnaval brasileiro, a Portela leva para o centro do país uma narrativa frequentemente invisibilizada.

A expectativa é que o enredo provoque reflexão e amplie o debate sobre a presença negra na formação do Rio Grande do Sul, rompendo com a imagem parcial que costuma definir a identidade do estado.

Caso conquiste o título, a Portela chegará ao seu 23º campeonato e reforçará sua posição como a maior vencedora da história do carnaval carioca. Independentemente do resultado, o desfile já se impõe como um gesto político e cultural de alcance nacional.