Ambiente hostil e exigências burocráticas fazem músicos internacionais repensarem presença no país
As recentes políticas migratórias implementadas durante o governo de Donald Trump têm provocado impacto direto na agenda de turnês internacionais no país. Artistas de diferentes partes do mundo estão cancelando apresentações ou evitando incluir os EUA em suas rotas, como mostra uma reportagem da NPR publicada nesta semana.
Entre os casos mais emblemáticos está o do cantor canadense Bells Larsen, que cancelou sua primeira turnê norte-americana após o governo reafirmar a política de reconhecimento binário de gênero com base no registro de nascimento. Como artista trans, Larsen tem passaporte atualizado, mas, com apoio jurídico, concluiu que não teria segurança para cruzar a fronteira. “É de partir o coração”, declarou.
Barreiras e insegurança jurídica
O endurecimento das políticas do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) e a intensificação da vigilância nas fronteiras têm gerado temor entre artistas internacionais. Casos de detenção, deportação e recusa de entrada passaram a atingir não apenas músicos, mas também estudantes e profissionais de outras áreas, especialmente aqueles que manifestam publicamente críticas ao governo dos EUA.
O cantor Neil Young, canadense naturalizado norte-americano e crítico de Trump, chegou a expressar receio de ser barrado em futuras reentradas no país. “Se você disser algo contra o presidente, pode ser barrado na entrada”, escreveu em abril.
Processo de visto oneroso e complexo
Além dos riscos, o processo legal para obter um visto de trabalho nos EUA é considerado caro, demorado e burocrático. O advogado especializado Matthew Covey estima que o custo total para um artista estrangeiro pode chegar a US$ 10 mil, sem garantia de aprovação. O processo exige um agente patrocinador, dossiê profissional, cartas de recomendação, consulta sindical e entrevista em consulado.
Mesmo com o visto aprovado, a entrada pode ser negada por agentes da Customs and Border Protection (CBP), que têm autonomia para revisar celulares e computadores dos viajantes. Bandas como a britânica Subhumans relataram que compram celulares novos apenas para evitar confiscos.
Impacto desigual entre países
Artistas de regiões como África, América Latina e mundo árabe enfrentam ainda mais obstáculos, com atrasos frequentes, exigências adicionais e pagamentos baixos pelas apresentações. “Você vai aos EUA, se apresenta, mas recebe pizza como cachê e dorme no chão”, resume Covey. “É preciso ter clareza se isso vale mesmo para a sua carreira.”
Silenciamento e exclusão
Para Bells Larsen, o efeito das políticas vai além da logística. “Somos pessoas reais com histórias importantes para contar. Ter que silenciar isso para viajar é devastador”, disse à NPR. O caso dele e de outros artistas evidencia como decisões políticas podem limitar o acesso à cultura e restringir vozes que buscam visibilidade no cenário internacional.