Cláudia de Marchi
Vésperas de Dia dos Pais e eu escrevo para os filhos que, num momento ou outro da vida, vivenciaram o seu abandono. No entanto, sei que a fase na qual a figura paterna foi ou é negligente determina muita coisa na vida das criaturas, influenciando, inclusive, suas demandas amorosas. Felizmente, eu vivenciei o rompimento de vínculo com o meu genitor em minha vida adulta, embora nossas divergências tenham se iniciado quase na minha adolescência.
Eram diferenças relacionadas aos meus pontos de vista acerca da religião (sou ateia) e política (sou de esquerda). O tragicômico é que me tornei quem sou graças ao estudo em bons colégios que meu pai bancava. Ele nunca me deu ouvidos, sequer após, enquanto acadêmica de Direito, numa fase na qual ele faliu por fazer maus negócios olvidando, novamente, dos conselhos da filha cujos estudos ele sustentava.
De toda sorte, não tive nenhuma ferida narcísica causada pelo meu pai enquanto minha mente se constituía, na infância. Ele foi atencioso, amoroso e terno, um belo exemplo de marido e homem. Do pai que tive na infância sinto homérica saudade, do pai fascista que nunca respeitou minhas opiniões, não. “Matar” a figura paterna da minha vida foi decisão racional e sensata que tomei em 2021.
A base de todo e qualquer relacionamento é o respeito, não as afinidades. Quando elas existem tudo fica fácil, mas impor a sua existência ao exercício do amor, seja paternal ou erótico, é narcisismo: se deseja amar o reflexo de si no outro, não ele e sua individualidade, suas características que o constituem como pessoa no mundo. Logo, se uma pessoa não consegue amar apesar das diferenças, ela não ama. E foi por isso que desisti de conviver com o meu pai. O meu eu, Cláudia de Marchi, mulher adulta, sempre o irritou, o contrário não acontecia, pois eu respeitava silente o seu Hilário, pobre de direita.
O próximo domingo, sabemos, é mais uma data capitalista voltada ao movimento do comércio, mas é um dia no qual as pessoas expressam os seus bons sentimentos aos seus pais. Logo, é uma data que desperta gatilhos negativos em todos os filhos e filhas que, de uma forma ou outra, foram preteridos da presença paterna, ainda que por seu arbítrio em nome da sua saúde mental.
Existem os que não tiveram um pai provedor de afeto ou financeiro. Existem os que foram abandonados na infância. Existem os que foram legados ao esquecimento, pois o pai, outrora marido da mãe, não soube encarar o divórcio sem divorciar-se, também, do rebento ou da rebenta. Existem os que nunca estiveram presentes, exceto no ato biológico da concepção.
A sociedade machista tolera o abandono paterno, mas condena o materno. Milhares de brasileiros e brasileiras não têm o nome do pai na certidão de nascimento, mas o aborto é algo impensável e condenável. Seria diferente se, quem parisse, fosse um homem. Elementar que, colocando uma pessoa no mundo, toda forma de irresponsabilidade é digna de rechaço e asco, vinda da mãe ou do pai.
O Dia é dos Pais, mas eu me compadeço dos filhos e das filhas que não têm um, que não tiveram a presença efetiva e o amor da figura paterna em qualquer fase das suas vidas: um filho ou uma filha nunca será suficientemente adulto ou velho para não precisar de um pai e de uma mãe, afinal, as nossas necessidades são muito maiores e mais complexas do que as de provimento financeiro e educacional. Nós nunca deixamos de precisar de carinho, atenção, compreensão e amor e é por isso que o próximo domingo não é, para todas as pessoas, um dia feliz.