Opinião: Porto Alegre sem cultura: A gestão Melo e o desmonte da arte na cidade

Nando Gross

Porto Alegre, uma cidade com uma rica tradição cultural, está sendo sufocada pela inércia e descaso da gestão do prefeito Sebastião Melo. Não bastasse a falta de investimentos na área, a prefeitura tem sabotado a cultura ativamente: verbas destinadas ao setor não são executadas, equipamentos culturais sofrem com falta de pessoal e recursos, e agora, até mesmo o Carnaval – a maior expressão popular do Brasil – foi vetado sob o pretexto de evitar “baderna”.

O argumento de Melo para barrar os blocos de rua na Cidade Baixa e em outros pontos da cidade esconde um viés elitista e moralista. A justificativa de que o Ministério Público recomendou a proibição não exime a prefeitura de responsabilidade. Afinal, cabe ao prefeito dialogar e buscar soluções que conciliem interesses diversos sem sacrificar manifestações culturais. O que se vê, no entanto, é uma postura autoritária, que associa o Carnaval ao caos, enquanto outras formas de ocupação do espaço público – geralmente promovidas por setores mais privilegiados da cidade – não sofrem a mesma repressão.

Além do boicote ao Carnaval, a Secretaria Municipal de Cultura acumulou um histórico vergonhoso de incompetência na gestão de recursos. Entre 2021 e 2023, cerca de R$ 2,8 milhões em emendas parlamentares ficaram parados, sem execução. Projetos que beneficiariam escolas de samba, a Casa do Hip Hop Rubem Berta, eventos de literatura e artes cênicas simplesmente não saíram do papel porque a prefeitura não teve a capacidade – ou a vontade – de fazer a máquina pública funcionar. A justificativa? Falta de servidores.

Ora, se há escassez de profissionais, por que não realizar concursos públicos ou remanejar equipes? Se há entraves burocráticos, por que não buscar soluções para agilizar os processos? A impressão que fica é que a cultura não é uma prioridade para a gestão Melo, e a falta de execução desses recursos é sintoma de um problema maior: o desmonte da política cultural em Porto Alegre.

Em Porto Alegre foi proibido o desfile oficial de blocos de rua durante o Carnaval

O resultado dessa negligência é a paralisia do setor cultural. Projetos fundamentais para a periferia, como o festival Cohab É Só Rap, estão sem recursos. Mostras de arte de rua, que poderiam trazer vida e movimentação econômica à cidade, são engavetadas. Artistas e produtores culturais seguem na luta, pressionando a prefeitura, mas enfrentam um governo que se recusa a enxergar a cultura como um motor de desenvolvimento social e econômico.

Porto Alegre já foi referência em cultura, com festivais vibrantes, teatros ativos e um cenário artístico pulsante. Hoje, sob a gestão Melo, a cidade se apequena, perde eventos, sufoca sua cena cultural e assiste a seus artistas mendigarem por recursos que já deveriam estar garantidos.

O prefeito pode até tentar justificar sua apatia com discursos sobre “responsabilidade fiscal” e “ordem pública”, mas o que sua gestão demonstra é um profundo desprezo pela cultura e pelo direito da população de expressar sua identidade. Enquanto outras cidades investem em cultura como estratégia de desenvolvimento e inclusão social, Porto Alegre anda para trás.

E o maior prejuízo não é apenas para os artistas ou para os blocos de Carnaval. O maior prejuízo é para a cidade inteira, que perde cor, movimento e alma.