Quando vi o recado do Juremir para que eu escrevesse um texto sobre João Gilberto aceitei na hora, mas depois fiquei enrolado.
O que dá para dizer sobre João que já não tenha sido dito? De qualquer forma, acredito que nunca é demais escrever um depoimento sobre João Gilberto. Sempre quando falarmos em Bossa Nova estaremos falando o seu nome, sem ele nada disso teria acontecido.
João não era compositor, tem apenas duas músicas registradas em disco, mas a sua maneira de interpretar redefiniu a história das canções de Tom Jobim e batizou para sempre aquilo como Bossa Nova.
E não estou falando da expressão “bossa nova” e sim da sonoridade. A origem exata do termo ainda permanece incerta, é uma antiga gíria brasileira l para algo que é feito com um talento especial ou uma habilidade rara. O pessoal das praias cariocas dos anos 1950 se referia a bossa nova para qualquer “tendência” nova ou “onda da moda”.
Ruy Castro conta no seu livro “Bossa Nova”, que o termo já estava em uso por volta de 1950, entre músicos, como palavra para caracterizar talento de alguém para tocar ou cantar de forma idiossincrática. O fato é que a expressão acabou servindo para definir aquela nova música que vinha sendo feita.
Conheci João Gilberto pouco depois de começar a ter aulas de violão, lá por 1976, mas foi com mais idade que eu consegui perceber o que aquilo realmente representava. Como os apaixonados por comida que se referem a uma refeição como “uma experiência gastronômica”, ouvir João Gilberto é uma “experiência musical”. Se tiver a oportunidade de fechar os olhos, sentir a batida do violão e a suavidade da voz, a viagem será completa.
O compositor da Bossa Nova é Tom Jobim, assina Garota de Ipanema, Corcovado, Wave, Desafinado, Chega de Saudade, Samba de uma nota só, Samba do avião e muito mais, além de ser um arranjador e pianista de estilo único, mas foi João Gilberto quem deu o acabamento para as músicas de Tom. Chega de Saudade e tantas outras jamais seriam tão lembradas não fosse pela forma de como João as tocava.
Por isso, mesmo sem ser o compositor do movimento, João é o criador da Bossa Nova, simplesmente porque o jeito de tocar e cantar diz mais sobre a Bossa Nova do que propriamente as suas composições.
João nunca deixou que se quebrasse o mito do ídolo. Hoje com as redes sociais as pessoas se expõem a toda instante, sentem necessidade de opinar sobre todos os assuntos e por vezes aquela relação do fã como seu ídolo acaba se desmanchando, simplesmente porque “de perto ninguém é normal”.
João Gilberto sempre foi avesso a entrevistas e aparições públicas em geral. Costumava dizer que gostava de cantar e ir para casa. Dizem os que conviveram de perto com ele de que passava o dia todo com o violão na mão e repetia a mesma música mais de 200 vezes até se convencer de que ela estava pronta para ser executada.
Em 1955, o baiano João Gilberto desembarcou em Porto Alegre, por onde morou cerca de oito meses. Com pouco mais de 23 anos, João chegou por aqui sem dinheiro algum, mas com vários amigos dispostos a lhe ajudar. Tocou com muita gente e circulou por vários endereços da Cidade Baixa.
Deste período guardo na minha casa uma relíquia que adquiri do grande Ivaldo Roque, um dos meus professores de violão. Um dos violões utilizados por João Gilberto, talvez o único, neste período em que ficou em Porto Alegre. Sim, é isso mesmo, eu tenho o violão que João Gilberto tocava aqui na cidade. Com certeza foi nele que muitas músicas foram idealizadas na sua forma de tocar. O que isso significa? pode acreditar, significa muito.
Eu não era nascido, tocava nas rádios em 1958 a música “Chega de Saudade”, de Tom e Vinícius, gravado por Elizete Cardoso e que tinha João Gilberto no violão. Foi o primeiro sinal de fumaça da Bossa Nova.
Em 1959, o LP de estreia de João leva este mesmo nome, mas era diferente de tudo aquilo que as pessoas estavam acostumadas a ouvir. O violão é o instrumento mais importante do disco, os arranjos de Tom Jobim deixam isso bem claro desde a primeira faixa. E a voz de João, sussurrando as canções, deixaram todos perplexos.
Em uma de suas raras entrevistas, nos anos 1970, ao jornalista Tarik de Souza, João Gilberto disse: “eu acho que as palavras deveriam ser pronunciadas da forma mais natural possível, como se estivesse conversando.” Sobre a métrica explicou um pouco do seu estilo: “às vezes, você pode adiantar um pouco a frase e fazer às vezes com que caibam duas ou mais num compasso fixo. Com isso, pode-se criar uma rima de ritmo.”
Esse era João Gilberto, por isso passava mais de 24 horas tocando a mesma música, queria descobrir uma maneira totalmente pessoal de tocar e cantar.
Em 1960, João Gilberto lançou o álbum “O Amor, o Sorriso e a Flor”, e , no ano seguinte “João Gilberto”. Em 1962, ao lado de Tom Jobim, Roberto Menescal e Carlor Lyra, se apresentou no Carnegie Hall, em Nova York.
João foi de muda para os Estados Unidos e em 1964 produziu um disco sensacional ao lado do saxofonista americano Stan Getz: “Getz/Gilberto”. Durante esse período, lançou ainda: “João Gilberto”, de 1973, e “Amoroso”, em 1977.
João voltou para o Brasil no início dos anos 1980 e gravou os álbuns: “João Gilberto Prado Pereira de Oliveira” e “Brasil – João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia”, respectivamente, em 1980 e 1981. Ainda se apresentou no festival de Jazz de Montreux e depois disso os shows e as gravações começaram a diminuir.
Em 2001, lançou “João Voz e Violão”, produzido por Caetano Veloso e que recebeu o Grammy na categoria de melhor álbum de World Music. A sua última apresentação ao vivo foi em 2008, quando fez uma turnê em comemoração de seus 80 anos. Em 2011 chegou a ser anunciada uma nova série de shows, mas teve de ser cancelada por motivos de saúde.
João teve um fim de vida bastante recluso, mas nunca deixou o violão e sempre adorou o contato com os netos, especialmente Sofia, com quem passava horas tocando e cantando. Sempre teremos a sua música e eu particularmente um cantinho e um violão. Não leva a mal, mas o violão é o do João.