Cláudia de Marchi
Fracassei desde o meu primeiro ano como cortesã, pois nunca consegui pensar só no dinheiro e tratar o sexo como ofício no qual, estando com um homem, gostando ou não, eu deveria seguir. Dei foras em homens que não sabiam fazer sexo oral, cancelei continuidade de encontros por beijo ruim, enfim, fui uma acompanhante extremamente seletiva e misândrica. Em algo que tu valorizas muito, o tal do “ganhar dinheiro”, fracassei homericamente, mas eu não sou um artista renascentista, não sou uma cortejadora de ricos, sou uma mulher livre que não se escraviza por nada, nem pelo vil metal, nem por paixões tão sem razões de ser quanto desnecessárias. Lanço Caótica nesta tarde e sepulto a tua existência da minha escrita.
Talvez te conhecer tenha servido para eu reconhecer minha força intelectual e me dedicar a ela. Quando me falaste que eu tinha aptidão para fazer a seleção de doutorado na USP eu não lhe disse que morar em São Paulo seria meu calvário psíquico, pois odeio cidades demasiadamente grandes, da mesma forma, não disse que eu não imaginava mais ficar tão longe do meu avô. Fiz o que toda mulher inteligente e, portanto, manipuladora faz, te envaideci dizendo que eu não queria ir, pois ficaria longe de ti.
Friso que a minha base moral é peculiar. Eu não sou moralista, ao contrário do que tentaste fazer eu pensar ser o seu pensamento a meu respeito, no fundo acho que não és tão imbecil ou desatento para pensar isso de mim, mas tentar atacar, ainda que passivo-agressivamente, era a tua onda. Epicuro é meu guia, nunca escondi o meu hedonismo, aliás, ele muito te encantava! Se bem me lembro, em 2020, antes de eu sumir e te bloquear, me ensinaste a falar “eu sou hedonista” em grego.
Os meus princípios morais são desprovidos de base cristã, tenho para mim regras que quase ninguém tem, mas são oriundos da transparência e da verdade com as quais sou constituída como ser humano livre e peculiar no mundo, no imenso universo que me abunda e segue silenciosamente belo e brilhante às margens do que pode ser definido como “normal” ou comum. São alicerces pagãos, mas não são levianos, tampouco hipócritas e covardes como os teus, pessoa que não sabe mais nem quem é neste mundo onde usas uma máscara para cada meio no qual interages vendo nas pessoas oportunidades de conquista de algum lucro, seja financeiro, profissional ou mero afago em teu ego.
Dentre os meus princípios morais está um básico que lesionei quando perdoei o fato de achares que não irias me pagar no primeiro encontro dia no qual, após vários cafés, fomos de Fusca azul bebê para um motel, circunstância totalmente inesperada por mim que, ao contrário de ti, não sou calculista e interesseira. Pagaste os R$ 1.250,00 da hora após eu te mandar entrar em meu site e fazer o PIX de tal valor sem o adicional de tempo que, evidentemente, existiu. Ali eu comecei a me trair moralmente. Não ter tornado a te bloquear depois deste fato foi o meu erro, ignorei a voz da minha mente que pugnava por tal ação e acabei adoecendo psiquicamente em menos de 6 meses morando nessa cidade. Adoeci, porque não cobrar para estar com um homem casado feriu de morte os meus princípios morais.
Eu sou sexualmente devassa, mas moralmente ordenada. Ficar de graça com um homem casado terminou com a minha saúde mental e não havia presente capaz de me indenizar por isso. Com um homem, a dois, como bem sabes, tudo gosto, tudo amo, tudo faço sem precisar de nenhuma artificialidade broxante, porém, sou dotada de ética e moralidade. Moralidade, não moralismo.
Moralista é um homem escravo do bom conceito que os outros têm dele, moralismo é, escondido, permitir-se viver todos os prazeres para, em sociedade, desfilar com aliança no dedo em que pese a tendência de esconder a mão esquerda em fotos e situações de exibição pública similares. Projetaste em mim quem tu és, por falta de coragem, de terapia, de tratamento, de reflexão constante e necessária. Tu, como tantos iguais a ti, foges de ti mesmo de todas as formas possíveis. Encarar a si no espelho, sem esconder-se no desbotado e fétido véu da vaidade, deve te ser insuportável.
O álcool ajuda, não tenho dúvidas, quiçá outras drogas sirvam ao mesmo fim e, assim, a vida passa e, como os teus pais, não tardará para ser um velhinho de mãos dadas com a amada andando pelo campo. Valeu a pena viver relação mortificada, pois aos 85 anos o fulano tem a doce sicrana para lhe cuidar e fazer companhia na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê para alegria das filhas, testemunhas afetivas e oculares de um “relacionamento perfeito”. A saúde mental delas que o diga!
Siga o exemplo de uma delas e faças terapia, recolha a masculinidade tóxica que ostentas já que te intitulas “feministo”, aja de acordo. Melhore, nunca é tarde. Procure tratamento psicoterapêutico, preferencialmente com um bom psicanalista, aproveite teu bom capital social e busque evoluir, pode não parecer, mas tu não sabes tanto da vida como tentas parecer. Tu és um homem “mimetizador”, tua vida é mimetizar o que tua vaidade requer, tua vida é fazer-se de grande e sábio para esconder as próprias fragilidades e, provavelmente, o fato de te sentires um imenso fracasso em boa parte do tempo, pois não consegue levar adiante quase nada com energia e ânimo. TDAH não tratada, não é!? Foi o que me falaste ano passado, eu desconfiava de um grau de transtorno do espectro autista. Pois é, nunca é tarde para o autocuidado mental e psiquiátrico, mas é mais fácil fugir de si ocupando bastante a vida, encontrando amantes, iludindo a esposa.
Tivemos uma relação de belos acasos, mas tu me idealizaste. Tu nunca pensaste que eu sou quem sou, muito, muito diferente de ti, dos teus conceitos de casamento, amor e paixão. Eu estive ali, você nunca viu quem eu era acreditando que éramos iguais. “Sob medida”, do Chico Buarque, não?! Eu sou uma mulher contrária aos ideais de amor romântico, mas corajosa para o amor. Amor que requer entrega, cumplicidade, desejo, tesão. Amor que se vive uma pessoa por vez, sem omissões e mentiras, sem falsidade.
Eu não sou “jovem demais” para aprender coisa alguma, eu não sou impetuosa, eu não sou nada do que tu afirmas que sou. Não vou e nem quero aprender com a vida para ser uma pessoa como tu. O que nos separa são princípios morais, amorosos, sexuais, conceitos basilares, anseios e, claro, o bom e velho caráter. Eu nunca te idealizei, mas posso dizer que achei que te amei, tu me idealizaste, te enganaste, eu nunca me escondi de ti. Nem de ti nem de ninguém. Eu tenho uma cara só, não uso máscaras, não manipulo e nem me vingo de ninguém sem antes dialogar e esclarecer o que me incomoda. Sou mais agressiva, franca e transparente do que tu. Por falar nisso: quem és? Eu não sei, mas sei que não sou, nunca fui e nunca serei perfeita para ti.
Quando eu paro para pensar do que serviu essa história não encontro respostas. Eu não merecia nenhuma angústia que passei e tu não viste. Ou viu, mas gostava. Ou viu, mas não se importava. Talvez tenhas sido, apenas o tema principal do meu quarto livro, deste cujo lançamento ocorre hoje num ritual de teu sepultamento em minha escrita: daqui em diante és um borrão, um tema proibido sobre o qual nunca mais escreverei.
Uma mistura de beleza com horror ou de uma beleza assustadoramente horrível. Importa aqui o texto que ficou dessa história que, talvez, tenha sido apenas um caso apto a mostrar para mim o quão mefistofélica eu posso ser. Essa relação revelou o meu pior lado, me confrontou com dor imensa e sentimentos monstruosos.
Acabou, eis a questão. E eu não vou dramatizar dizendo que levarei saudades ou lições, pois não as trago. Poderia ser qualquer homem no tu lugar, mas foste tu. Dos homens infiéis que conheci o que traía sem respeito algum, sem medo de ser descoberto, sem discrição. Eu nunca vou saber o porquê disso tudo que tivemos, porém agora eu tenho um conforto: não me interessa mais, os porquês são da vida, não meus, os porquês devem ser até teus, da tua racionalidade, dos teus sentimentos, das tuas atitudes passivo-agressivas e narcisistas, os porquês não me interessam mais. Os porquês já foram e não irão mais voltar, assim como eu para essa coisa que levas e chamas de vida. Hoje é o dia do teu sepultamento na minha escrita e existência.