Cláudia de Marchi
Não existe amor cego, existe obliteração de defeitos graças a tal nobre sentimento. “Ah, mas quem ama o feio bonito lhe parece”, não, não parece: a pessoa sabe da ausência de proporção áurea de quem está ao seu lado, porém lhe ama apesar da feiura, da falta de graça ou qualquer coisa que o valha. A pessoa ama, porque estar na companhia de determinada criatura lhe faz bem, lhe faz feliz. A gente ama a beleza dos sentimentos que nos causam, para muito além de amarmos a aparência de quem nos enternece.
Nós amamos “apesar”: apesar da aparência assimétrica, apesar dos defeitos, apesar das limitações. Amamos sem saber o porquê, mas isso não significa que sejamos cegos aos defeitos do outro. Segundo o filósofo esloveno Slavoj Žižek, o amor está na ausência de motivos, pois se temos motivos para amar uma pessoa nós não a amamos.
O amor prescinde de explicações. Talvez ele resida no indizível, na magia daquilo que tanto se sente e tão pouco se explica. Talvez o amor seja o encantamento homérico pelo outro sem que exista, nisso, uma forma racional e razoável de se falar sobre ele. Talvez o amor seja o único sentimento que escapa da racionalização, porque ele não se constitui apenas da admiração. Assim como não se constitui somente do desejo erótico. Admiramos muitas pessoas ao longo de nossa vida, amamos poucas.
Sentimos atração por pessoas distintas, amamos raras. Talvez, como cantou o Milton Nascimento, existam atos que “queiram dizer” amor. Atos amorosos, atos de ternura, afinal, ainda que o amor careça de justificativas e fuja das tortuosas paredes da razão humana, ele se explicita em atitudes: das mais simplórias até as mais grandiosas.
Talvez o amor resida, também, naquela troca de olhares profunda e densa que despe a nossa alma! O amor, portanto, é traduzido com maior asserção pelos olhos de quem ama do que pelo mais elaborado dos discursos.