O crime não mora na favela

Por Nando Gross

No Rio, ainda se insiste na mesma fórmula: entrar na favela atirando, matar pequenos traficantes e sair com o discurso de que o crime foi combatido. O problema é que o crime organizado não mora na favela, ele só usa o morro como vitrine. O verdadeiro poder está no dinheiro e nas conexões que o sustentam.

A droga é a imagem mais visível, mas não é o principal negócio das facções. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que o crime organizado movimenta centenas de bilhões por ano no país, e a maior parte vem de combustíveis adulterados, bebidas, ouro e contrabando de cigarros. O tráfico, mesmo sendo o símbolo da violência urbana, representa uma fatia pequena desse faturamento total. O núcleo duro está nas rotas financeiras, na lavagem de dinheiro e nos mercados ilegais que funcionam à luz do dia.

No Rio, o Comando Vermelho domina áreas inteiras, mas seu dinheiro circula em empresas, postos de gasolina, revendas e imóveis que não são atingidos por operações policiais. A cada incursão em favelas, o Estado finge atacar o crime enquanto mata jovens pobres e deixa intacta a estrutura que banca a violência. É o combate de fachada que serve para estatística, não para resultado.

O mesmo vale para as milícias, que há muito tempo superaram o tráfico em influência econômica. Elas controlam gás, transporte, construção civil, TV clandestina e comércio. Transformaram necessidades básicas em fonte permanente de renda. E quanto mais o Estado se omite na prestação de serviços, mais lucram com a ausência do poder público.

Não é nas vielas que se corta a raiz do crime, mas nas contas bancárias e nas cadeias de fornecimento. É rastreando combustível, ouro e cigarros, fiscalizando empresas e bloqueando fluxos de dinheiro. Sem isso, a guerra nas favelas é só espetáculo de fumaça e morte.

O Rio precisa entender que matar o varejo da droga não abala o atacado do crime. A repressão sem inteligência só multiplica enterros e fortalece o discurso de sempre: o inimigo é o pobre armado, não o empresário que lava o lucro. Enquanto isso, o dinheiro segue limpo, circulando em paz.