Moralismo seletivo: quem critica dinheiro público, mas recebe

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Há artistas que gostam de posar como fiscais da moral alheia quando o assunto é cultura financiada com recursos públicos. Apontam o dedo para a Lei Rouanet, falam em “mamata”, “privilégio” e “esquema”. O problema começa quando os nomes desses mesmos críticos aparecem, com frequência, em contratos pagos por prefeituras e governos, com dinheiro público, inclusive federal.

Zezé Di Camargo é um caso exemplar. Em dezembro de 2025, foi firmado contrato por inexigibilidade no valor de R$ 500 mil para um show do cantor na Festa de Reis de São José do Egito, no Sertão de Pernambuco. O documento é claro: a contratação foi feita pela prefeitura, com recursos públicos vinculados, incluindo recurso federal, via dotação orçamentária municipal. O pagamento foi direcionado à empresa intermediadora Classical Holding Intermediação de Negócios Ltda.

Não é um caso isolado. Em outubro de 2025, outro contrato, desta vez em Porto Belo, Santa Catarina, pagou R$ 450 mil por um show da dupla Zezé Di Camargo & Luciano, também com dinheiro público municipal. Em levantamentos de contratos e incentivos ao longo dos anos, o nome da dupla aparece associado a dezenas de milhões de reais em recursos públicos diretos ou indiretos.

Nada disso é ilegal. O ponto não é jurídico. É político, ético e discursivo.

Esses mesmos artistas costumam atacar a Lei Rouanet, fingindo desconhecer o básico: a Rouanet não paga cachê direto, não deposita dinheiro na conta de ninguém. Ela autoriza captação via patrocínio privado, com renúncia fiscal, projeto aprovado, prestação de contas e fiscalização. Já o show contratado por prefeitura é pagamento direto, muitas vezes alto, para uma apresentação única, sem legado cultural e com pouco debate público sobre prioridade.

O discurso muda conforme o palco.
Quando o dinheiro público financia teatro, cinema, dança, música instrumental ou arte contemporânea, vira “ideologia”.
Quando banca sertanejo, vira “festa popular”, “tradição” ou “turismo”.

O problema nunca foi o dinheiro público. O problema é quem recebe e quem fala.

Criticar artistas, especialmente mulheres, por “exposição excessiva”, “decadência moral” ou “falta de dignidade”, enquanto se assina contratos milionários pagos com verba pública, é mais do que incoerência. É hipocrisia com cachê.

No fim, a conta é simples e os números estão aí:
R$ 500 mil aqui, R$ 450 mil ali, pagos com dinheiro de todos, enquanto o discurso segue apontando o dedo para os outros.
Quem vive de recurso público deveria, no mínimo, ter honestidade intelectual para admitir isso antes de posar de juiz.