Foto: Bruno Veiga/Divulgação
Nando Gross
Luis Fernando Verissimo se foi. Aos 88 anos, nos deixa um escritor que não apenas ocupou estantes e páginas de jornal, mas que ensinou o Brasil a rir de si mesmo. A notícia da morte em Porto Alegre, vítima de complicações de uma pneumonia, não é apenas a despedida de um autor, mas o fim de um elo raro entre literatura e cotidiano.
Verissimo tinha um dom que poucos possuem: olhar para a rotina mais banal e encontrar ali um significado especial. Era capaz de transformar uma mesa de bar, uma pelada de futebol ou um almoço de domingo em literatura. Sempre com humor, sem arrogância, com a ironia suave de quem prefere o riso à lição de moral.
Porto Alegre era seu porto. Nunca deixou de ser o filho de Érico Verissimo, mas criou seu próprio caminho. Do pai herdou a disciplina do ofício, mas foi além: se tornou cronista do Brasil das miudezas, das conversas atravessadas, da política debochada e do futebol levado a sério demais.
Sua morte é uma perda para o país, mas seu legado segue vivo. Seus livros continuarão sendo lidos como quem encontra um amigo espirituoso disposto a conversar. É isso que Verissimo foi: um amigo de gerações, um escritor que falava simples sem ser simplório, culto sem ser pedante.
Fica a saudade e a certeza de que a crônica brasileira perde um de seus melhores. Veríssimo é daqueles que mostraram que não é preciso gritar para ser ouvido. Bastava a ironia fina, o riso discreto e a humanidade que atravessava suas frases.
Hoje o Brasil acorda mais triste. Mas, se fosse possível ouvir sua voz, talvez dissesse que não é dia de choro, e sim de lembrar a graça que ele espalhou em meio ao caos.