O Império Serrano escolheu a escritora Conceição Evaristo como enredo para o desfile deste sábado na Série Ouro do carnaval carioca. A escola de Madureira presta tributo a uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea, autora que transformou a própria experiência em ferramenta de expressão e reflexão social.
Criadora do conceito de escrevivência, Conceição construiu uma obra baseada na relação entre memória, identidade e realidade. O termo sintetiza sua proposta literária, escrever a partir da vida vivida, da experiência coletiva e das marcas históricas da população negra no Brasil.
Para a autora, ver sua trajetória transformada em samba representa um encontro simbólico entre duas formas de expressão populares. Durante evento recente na quadra da escola, destacou a importância de aproximar literatura e comunidade. Segundo ela, o livro precisa ser entendido como direito e pertencimento de todos.
Da periferia de Belo Horizonte ao reconhecimento internacional
Nascida em 1946, em Belo Horizonte, Conceição Evaristo cresceu em uma família numerosa e começou a trabalhar ainda criança. Mesmo diante das dificuldades, manteve os estudos e construiu uma trajetória acadêmica sólida. Formou-se em Letras pela UFRJ, fez mestrado na PUC-Rio e doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense.
Sua projeção começou nos anos 1990, com publicações na série Cadernos Negros, referência na literatura afro-brasileira. O reconhecimento nacional veio com o romance Ponciá Vicêncio, lançado em 2003 e posteriormente traduzido para outros idiomas.
Outras obras importantes incluem Becos da Memória e Olhos d’Água, este último vencedor do Prêmio Jabuti. Seus textos abordam racismo, desigualdade e a experiência da mulher negra, sempre com forte dimensão autobiográfica e social.
Literatura que ganha corpo na avenida
O Império Serrano é conhecido por enredos que dialogam com a cultura e o pensamento brasileiro, mas esta é a primeira vez que a escola homenageia uma escritora mulher. O desfile propõe traduzir em imagens, música e movimento o universo literário de Conceição Evaristo.
Mais do que reverenciar uma autora, o enredo coloca em evidência o papel da literatura como instrumento de afirmação e transformação. Ao levar a escrevivência para a Sapucaí, o samba amplia o alcance de uma obra que já ocupa lugar central no debate cultural brasileiro.
Hoje, Conceição Evaristo é estudada em escolas e universidades e reconhecida como uma das principais intelectuais do país. Sua presença no carnaval confirma que sua escrita ultrapassou as páginas e passou a integrar também o imaginário coletivo.