Fórum da Liberdade: a direita reunida em ano eleitoral

Porto Alegre voltou a sediar o Fórum da Liberdade e, como acontece há anos, o evento foi vendido como um espaço plural de debate sobre o futuro. Não é bem assim.

O Fórum tem lado. E isso, por si só, não é problema. O problema começa quando se tenta apresentar como diversidade aquilo que, na prática, é alinhamento. A maioria dos convidados circula dentro de um mesmo campo ideológico, com visões econômicas e políticas muito semelhantes, muitas vezes acompanhadas de uma leitura indulgente sobre a ditadura militar brasileira.

Não se trata de censurar o debate, nem de impedir que a direita se organize. Pelo contrário, faz parte do jogo democrático. Mas é preciso dar nome às coisas. O que ocorreu em Porto Alegre foi uma reunião de pensamento liberal e conservador, com forte presença de figuras identificadas com a direita brasileira e internacional.

O contexto agrava a distorção. Em ano de eleição presidencial, encontros assim deixam de ser apenas acadêmicos ou empresariais e passam a ter peso político direto. Influenciam pautas e até candidaturas. Ignorar isso é tratar o público como ingênuo.

A cobertura da mídia gaúcha, em boa parte, preferiu o caminho mais confortável. Destacou o evento como um grande fórum de ideias, plural e aberto, quase como se diferentes visões de mundo estivessem em pé de igualdade no palco. Não estavam.

Faltou dizer com clareza: trata-se de um evento com recorte ideológico definido. Faltou contextualizar falas, trajetórias e posições dos convidados, especialmente quando há simpatia ou relativização de um período como o da Ditadura Militar Brasileira.

O papel do jornalismo não é suavizar nem amplificar, é esclarecer. Se um evento é de direita, diga que é de direita. Se há vozes que tratam a ditadura com complacência, isso precisa ser informado ao público.

O Fórum da Liberdade é organizado pelo Instituto de Estudos Empresariais, e o próprio histórico do IEE explica o perfil do evento.

O instituto nasceu e se consolidou como um espaço de formação e difusão do pensamento liberal clássico no Brasil. Defende livre mercado, protagonismo da iniciativa privada e redução do papel do Estado. Não esconde isso. Pelo contrário, sempre foi transparente na sua linha.

A partir daí, o Fórum segue a mesma lógica. A curadoria dos convidados não é neutra, ela é coerente com a visão de mundo do IEE. Por isso aparecem nomes como Paulo Guedes e Guilherme Benchimol, além de figuras da direita latino-americana como Jorge Quiroga.

Não há problema nisso. O problema é quando parte da cobertura tenta deslocar o evento do seu eixo original, como se fosse um fórum neutro, amplo, representativo de várias correntes. Não é.

O IEE organiza um evento alinhado à sua visão de mundo. Normal. O jornalismo precisa partir desse ponto para informar com honestidade. Quando ignora essa base, cria uma narrativa que não corresponde ao fato.