Cláudia de Marchi
Viver é um eterno “estarmos sendo” até deixarmos de ser. Nós nunca somos, nós sempre estamos, eis a neuroplasticidade provando, cientificamente, que nem mesmo o nosso cérebro hoje é o mesmo de outrora. Na ordem da vida não há, quase sempre, nenhuma margem para o “pra sempre”, pois somos seres em constante estado de mudança e adaptação: aos trinta não somos quem éramos aos vinte, aos quarenta não somos quem éramos aos trinta e assim a vida segue, por isso confiar na eternidade de relacionamentos amorosos é, geralmente, um delírio, até mesmo porque a ordem da vida é o fim, pois somos mortais.
Todavia, estamos compreendendo cada vez melhor as nossas mudanças ao longo do tempo. Deixamos paixões de lado, o esporte praticado na juventude, descobrimos novos talentos, fazemos novas leituras, conhecemos novas formas de expressão artística, enfim, a transformação é a ordem da vida. Podemos mudar de profissão, investir em antigos encantos, reconhecer outros: a vida não começa aos quarenta, mas também não termina aos sessenta.
Existe vida enquanto temos verve de viver. Enquanto temos interesse por novidades, ainda que antigas na ordem do mundo, enquanto respeitamos nossas revoluções e temos a capacidade de nos encantar com outras paisagens, com outras pessoas, com novos planos e novos sonhos. Podemos descobrir novas razões para amar, viver e ser feliz a cada ano de nossa vida desde que aceitemos a morte de quem éramos noutros tempos, assim como o nosso constante renascimento. A vida também é sobre isso: enterrar o nosso eu do passado para ser feliz com o nosso eu no presente.
Diante dessas circunstâncias, a geração Y e Z, adeptas da psicoterapia de forma oposta à das gerações anteriores, por suas vezes, repletas da toxicidade do machismo — essa besta-fera massacrante da saúde mental tanto dos homens como das mulheres — que acha que existe idade para tudo, para construir família, para empreender, para fazer o que ama, para se apaixonar, para criar, para se encantar por novidades, para ser feliz e, após, esperar a morte chegar vivendo uma sequência de dias melancólicos e saudosistas, não vigora mais o etarismo que coloca a vida das pessoas em caixas lacradas nas quais, depois de atingir certo número, há a imposição de uma série de proibições.
Em 1988, período de redemocratização, geração de nascimento dos primeiros millenials, o etarismo era preponderante. As pessoas queriam se casar com vinte e poucos anos, ter filhos antes dos 30, viajar o mundo até os quarenta, viver eternamente casadas, situação exitosa a depender da dependência financeira da mulher. Felizmente, boa parte delas era livre e independente para romper casamentos insatisfatórios e seguir a vida com energia sem precisar aceitar infidelidade ou outras formas de desrespeito.
No âmbito da teoria literária a chamada teoria da recepção leva em consideração a interpretação dos leitores na construção do significado dos textos literários, dentro deste ponto a mudança social e histórica influencia a boa aceitação ou não de obras clássicas ou mais antigas. A recepção, num sentido ampliado, inclui outras formas de manifestações artísticas, como, a título exemplificativo, a musical, a cinematográfica e a teledramaturgia, no caso específico, da refilmagem da telenovela Vale Tudo.
Se, ao fim dos anos 80, uma bilionária aporofóbica como Odete Roitman chocava a sociedade com o exercício de sua sexualidade tesa com mais de 60 anos, hoje isso não surpreende negativamente. As sexagenárias não são mais avós com tal idade, muitas podem se divorciar e viver livremente o restante de suas vidas, algumas estão redescobrindo o amor, malham, se cuidam. Os sessenta são os novos cinquenta! Aliás, conforme García Marquez (2022, p. 68): “A idade não é a que a gente tem, mas a que a gente sente”.
A aporofobia de Odete não assusta mais, especialmente uma sociedade que teve como ministro da Economia uma espécie de Caco Antibes para quem o dólar alto era bom, pois antes as empregadas domésticas estavam indo para a Disney. A empresária é fascista, mas o Brasil elegeu um nas eleições de 2018! Como todos os fascistas, ela também é racista, mas as pessoas deste país votaram, em tal eleição, num sujeito que se referiu ao peso de afrodescendentes com “arrouba” e disse que seus filhos não corriam o “risco” de namorar negras ou virar gays porque foram “bem-educados”.
O Brasil é um país forjado no preconceito de classe e no racismo: as falas brutas da personagem traduzem o pensamento da maior parte de elite e da classe média deste país. A vilania de Odete, portanto, vem, em sua recepção atual, mais branda de acordo com as redes sociais. Aliás, muitos dizem que ela é uma bilionária com pouco escrúpulo — conforme esperamos de quase todas as criaturas bilionárias — que só adora ter sexo com homens bem compleicionados e quer a felicidade dos rebentos. A dona Odete da belíssima Débora Bloch não é a mesma de Beatriz Segall, principalmente, porque o público expectador não é o mesmo daquele de 1988.
As mulheres não são mais as mesmas, os relacionamentos não são mais os mesmos. Num mundo onde muito se fala, e os mais dementes gostam, da “liquidez” dos relacionamentos, a empresária explora os seus namoradinhos com o aval do público, afinal, ela quer, ela gosta e pode, pois além de ter dinheiro, tem um corpo mais bonito do que o de muitas balzaquianas. Ela e a maioria das minhas colegas de sua faixa etária que malham na academia que frequento.
Pelos memes no Instagram o público atual não reage com muita simpatia à honestidade de Raquel, a mocinha da trama. Num mundo onde boa parte dos jovens enfrentam um mercado de trabalho hostil e possui incerteza quanto ao futuro, num mundo desigual com boa parte das pessoas, ao menos as mais letradas, nutrindo irresignação com o capitalismo, o discurso da personagem honestíssima mais irrita do que cativa.
Na verdade, essa novela, por mim acompanhada pelas redes sociais, parece expor dois tipos de pessoas, ambas prisioneiras: aquelas aprisionadas pela própria ganância e as prisioneiras dos próprios princípios. Ambas são chatas, mas as escravas do desejo de muito ter são as mais ocas e infelizes até mesmo porque, e eu sei bem como pessoas ricas são, elas nunca ficam satisfeitas, nunca conseguem preencher com dólares o vazio da própria alma, a carência de contentamento nunca finda e, assim, lhes impede de sossegar.
De toda sorte, se a ascensão dos idiotas com voz amplificada através da internet é imensa na atualidade, o etarismo, filho do machismo, — afinal limitações etárias são imposições impostas, geralmente, às mulheres, — diminuiu consideravelmente. A representação da mulher de 60 anos hoje é outra, pois as sexagenárias não estão mais condenadas a uma vida sem sexo, a manter casamento sem paixão, a depender do marido financeiramente. A vida só termina com a morte, até tal momento todos podemos aprender e viver intensamente os nossos desejos sem sermos aprisionados por números através dos quais o mainstream nos controla e limita castrando a nossa liberdade e possibilidade de usufruir uma vida plena do começo ao fim.
Referência:
GARCÍA MARQUES, G. Memória de minhas putas tristes. Trad. Eric Nepomuceno. 34. ed. Rio de Janeiro: Record, 2022.