Estafa comunicacional

            Toda espécie de relacionamento humano se torna potencialmente cansativa pela constante necessidade de interação verbal e, consequentemente, de compreensão recíproca. Eis algo de altíssima necessidade e utilidade, mas comumente fastioso. Enfim, é a vida e suas chatices necessárias. Entretanto, na era do áudio ouvido em modo ultrarrápido, em tempos de pressa para tudo, de gente que pouco contempla a vida e seus belos momentos longe dos seus smartphones, de pessoas imaturas com mais de meia década de vida, a paciência para o diálogo está cada vez mais escassa.

            Aliás, o ser humano vem demonstrando baixíssima tolerância ao que requer o mínimo esforço e abnegação. Eis jovens usando remédios para emagrecer por não quererem se exercitar e fazer dieta; eis adultos consumindo álcool e drogas ilícitas em demasia para fugirem dos seus pesares, do autoenfrentamento e da psicoterapia; eis homens e mulheres se sobrecarregando para preencherem o seu impreenchível vazio. As pessoas, desejando que a vida seja uma cereja, ignoram o seu amargor, pois encará-lo requer energia, ânimo e esforço para implementar algumas formas de adoçá-la.

            Nos relacionamentos amorosos, boa parte deles advindo de contatos feitos em aplicativos que parecem cardápios de pessoas, quem quer algo além de sexo exige combinação total, quer encontrar na outra pessoa a imagem de si mesma para, assim, não ter que ajustar nada, se abrir e dialogar. Há a busca por réplicas de si, pois as pessoas também faliram no amor: elas querem amar narcisicamente.

Bem, quem deseja companhia por alguns raros momentos exerce seletividade zero e, quase sempre, conquista o que busca. Felizmente, eu não faço parte deste grupo de pessoas afeta ao sexo casual e ao “bye, bye” em seguida. A vida dessas pessoas deve ser mais simples, embora solitária. Topar qualquer parada para se dispersar, para além de ser uma escolha, é um sintoma da solidão pós-moderna. Da necessidade de ter alguém ali para aplacar um vazio que parece momentâneo, mas é permanente e triste.

Eu sou advogada há décadas. Eis um ofício que requer o constante uso das palavras. Como pesquisadora ocorre a mesma coisa, como cronista, as palavras são o meu mundo. Na verdade, as palavras nos constituem, as palavras nos formam, como escreveu Jorge Larrossa (2021, p. 16-17):

E isto a partir da convicção de que as palavras produzem sentido, criam realidades e, às vezes, funcionam como potentes mecanismos de subjetivação. Eu creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e, também, as palavras fazem coisas conosco. As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. E pensar não é somente “raciocinar” ou “calcular” ou “argumentar”, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece. E isto, o sentido ou o sem-sentido, é algo que tem a ver com as palavras. E, portanto, também tem a ver com as palavras o modo como nos colocamos diante de nós mesmos, diante dos outros e diante do mundo em que vivemos. E o modo como agimos em relação a tudo isso.

São as palavras que refletem o que sentimos, afinal, sentimento não expresso, é uma sacola plástica voando a esmo no meio de uma tempestade: não significa coisa alguma. As coisas só são óbvias quando ditas, quando expressadas, quando explicitadas, do contrário são meras elucubrações e, convenhamos, na sociedade do cansaço, ninguém tem muito tempo para elucubrar. Enfim, o óbvio só é, realmente, óbvio, quando dito.

Ter que lembrar cliente que não existe “dar uma olhada” num processo ou contrato gratuitamente; ter que avisar para o empacotador do mercado que precisa colocar duas sacolinhas quando existem 3 três garrafas de vinho dentro de uma; ter que dizer ao motorista do aplicativo para ele não correr em demasia; enfim, não há vida sem palavras, mas às vezes a gente precisa morrer um pouquinho para descansar do excesso de comunicação que a vida nos impõe graças, inclusive, à incompetência alheia.

Na construção de relacionamentos num mundo onde a maioria deseja se ver refletida na outra pessoa, pois dialogar e trocar ideias “dá trabalho”, falar o que nos incomoda ou o que desejamos, nos faz sentir como se fossemos uma tonelada de Césio-137. É desgastante, porque quem fala se sente cansado por precisar falar e se presume chato e inconveniente.

Entretanto, não é quem negligencia o básico e impõe ao outro o dever de pedi-lo a própria Chernobyl? Nessas questões de falar sobre necessidades emocionais não seria quem as chama de “cobranças”, ignorando o fato de que pouco faz em prol do bem viver do amor, aquela verdadeiramente tóxica e, portanto, exaustiva, pois, displicente com as dores alheias e demasiado autocentrada?

Essas são meras reflexões, mas não nego que, entre tanto cansaço e exaustão causados por preconceito, pela necessidade de ter que me impor até de forma indelicada para ser respeitada por quem me menospreza, entre Burnout e vida amorosa horrenda, fui, enfim, tomada pela estafa comunicacional: podendo ficar quieta, eu fico; podendo me calar, eu me calo e, de onde eu tiver que requerer alguma coisa simples, me evado, porque eu não suporto ouvir a minha própria voz pedindo o mínimo do mínimo do mínimo. Aliás, sobre isso, estou preferindo o emudecimento eterno.

Referência:

LARROSA, Jorge. Tremores: escritos sobre a experiência. Belo Horizonte – MG: Autêntica, 2021.