É preciso saber desistir!

Cláudia de Marchi

Eu sou uma cronista autobiográfica em praticamente tudo o que escrevo, pois não conheço tão bem — tampouco desejo — outra vida além da minha que, por sua vez, é muitíssimo interessante. Neste sentido, em poucas palavras vou atentar contra o raciocínio brega e perigoso segundo o qual a pessoa cansada de recomeçar deve parar de desistir. Pensamento medíocre, crença altamente adoecedora.

Primeiramente, tudo o que nos desagrada de alguma forma, nos cansa. Serve para trabalho e relacionamentos. Bem, até quando são agradáveis, verdade seja dita, a manutenção de ambos requer empenho, atenção e jogo de cintura e, exercitá-los é, também, um tanto cansativo. 

Voltando, eu persisti em tudo o que pude para evitar recomeços. Me exauri num casamento que me afastou do meu trabalho, depois me exauri persistindo na advocacia em Passo Fundo até que um belo dia eu resolvi que não queria acordar viva no outro dia. Entretanto, acordei. Entre 2009 e 2012 eu tentei deixar de existir duas vezes por uma série de pequenos motivos que podem ser resumidos numa palavra: exaustão. 

        Eu nunca fui uma pessoa clinicamente depressiva, muito pelo contrário, sou e sempre fui demasiadamente alegre e vibrante, uma pessoa que vive com encanto e ânimo. Todavia, minhas fases de homérica ansiedade se deram, coincidentemente, após eu abrir o meu primeiro escritório. Vivi, portanto, uma vida doce e fácil por duas belas décadas, quando tive que me sustentar o capitalismo me fez ansiosa.

        Ao fim de 2012, conheci um psiquiatra forense porto-alegrense e noivamos um mês depois do primeiro encontro. Íamos nos casar numa igreja na qual ele, que já fora casado anteriormente, poderia levar a bela noiva agnóstica ao altar para ficar socialmente bela a união. Eu amava meus sogros, admirava o intelecto do noivo mais velho e fui flanando com ele. Terminei o noivado às vésperas do casório, com tudo marcado e vestido alugado e “fugi” advogar, escrever e lecionar no Mato Grosso. 

        Muitas coisas aconteceram e, num momento, resolvi deixar as tentativas amorosas e a advocacia de lado para tornar-me cortesã. Sim, recomeços são cansativos, pois, repito: tudo o que requer exercício psíquico e mental é cansativo. Eu trabalhava praticamente três turnos antes disso, meus namorados confundiam tesão com amor e, assim, decepcionada, eu era obrigada a terminar os namoros. 

Viver é desistir quando dói, viver é desistir quando o ânimo esmorece, quando a luz ofusca, quando mais cansa do que alegra! Persistir em nome de uma crença baseada em livros de autoajuda do século passado é insano, é doente, é demente. As minhas maiores crises de ansiedade advieram da perseverança naquilo que merecia desistência sumária. Não sejam como eu já fui: se dá mais dor do que prazer, desista. Cansa recomeçar, mas se manter e sofrer cansa mais.

É impossível ser uma criatura minimamente sensível nesse mundo, desde sempre meio torto, e não se sentir, eventualmente, cansada da vida. Obviamente, situacional ou organicamente, a existência deste cansaço se torna um sintoma: pulsão de morte, desejo de fim, como aconteceu comigo por causas situacionais contadas em Caótica, meu novo livro que será lançado no fim de março. 

Sempre foi muito fácil para mim ser alegre, paradoxalmente, sou intensa e a vida costuma ser, oportunamente dura, oportunamente tediosa, para pessoas como eu, por isso escrevo. Qualquer forma de arte é uma forma de salvar a vida. Meu famoso bom humor, meu hábito constante de fazer alegre os outros sendo uma pessoa divertida, no entanto, nunca me impediu de viver com intensidade as minhas dores, as minhas frustrações. A fuga, como disse Freud, nos aprisiona. 

No geral, as pessoas se ostracionam e fogem do luto. Na realidade, elas nem sabem o que é esse processo, imaginam que se trata apenas do caso da perda de alguém que amam e falece, no entanto, essa é apenas uma das causas geradoras do enlutamento. A gente encara o luto até diante do término de relações tóxicas e prejudiciais, inclusive porque, ainda que fosse a doce segurança do acomodamento, algo de bom havia; a gente também encara o luto de uma demissão e até de um pedido de demissão; a gente encara o luto do luto quando o sofrimento passado faz aniversário! 

Viver requer, inicialmente, sabedoria para sofrer, coragem para encarar nossos fracassos, nossas derrocadas, nossas perdas, com orgulho da nossa força, não com a vaidade dispersante que disfarça a dor para os outros enquanto ela maltrata por dentro. Mudanças nos doem, inclusive as que fazemos para melhor, afinal sempre há alguma renúncia, alguma desistência. Sentir dor cansa, viver também; entretanto, apesar de doer, a vida também rejubila.