Opinião: Nando Gross
A polarização virou um atalho. Um truque repetido. Funciona por um tempo, rende números, alimenta bolhas. Mas esgota. Cansa. Queima pauta, queima credibilidade, afasta quem paga a conta: o público e os patrocinadores. No fundo, todo mundo sabe que esse caminho é curto e raso.
Fazer um canal de TV baseado em briga política pode parecer um bom negócio. Mas é como construir uma casa em cima de um barranco que está desmoronando. O público muda, as marcas mudam, o clima muda. E quem apostou tudo na raiva acaba sem lastro.
O que imagino é outra coisa. Um canal que não precise se escorar nesse jogo binário. Que dê espaço para quem está criando, pesquisando, produzindo. Que fale com influenciadoras que pensam, artistas que incomodam, produtoras independentes. Gente que não cabe no rótulo fácil de “esquerda” ou “direita”.
A Oprah Winfrey Network criou uma grade sólida nos Estados Unidos focando em temas de identidade, afeto, comunidade. Sem levantar bandeira partidária, mas também sem fugir de temas relevantes. Fez sucesso, atraiu investimento, virou referência.
No Brasil, criadoras como Nath Finanças e Rita Von Hunty são procuradas por marcas justamente porque falam com clareza, têm conteúdo, não apelam para o conflito pelo conflito. São respeitadas porque sabem do que estão falando, não porque gritam mais alto.
Fugir da polarização não é se omitir. Não é fingir que tudo está bem. É simplesmente recusar a fórmula fácil. É tratar o público com respeito. É dar profundidade a temas que importam de verdade: cultura, saúde mental, educação, cidade, trabalho, prazer, arte.
As marcas querem isso. Querem segurança, coerência, bons valores. Não querem ver seu nome ao lado de programas que promovem discurso de ódio. E o público está mais atento do que se imagina.
A provocação é simples: por que continuar apostando numa lógica que já se mostrou cansada?
Um canal que se proponha a sair dessa armadilha tem um espaço enorme pela frente. Porque há gente produzindo conteúdo bom, novo, necessário. O que falta é visibilidade, estrutura, aposta.
Não é um projeto neutro. É um projeto claro: fazer televisão com inteligência, sem tratar o público como massa de manobra. Um canal com espaço para ideias e não apenas para slogans. Um canal que informe, questione, conecte.
Não é fugir do debate. É mudar o tom. Porque a polarização é barulho. E o que se precisa agora é escuta, conversa, análise e, sim, emoção, mas com conteúdo.
Pensar grande hoje é sair do jogo raso. E construir algo que fique em pé depois da próxima eleição.
Não, eu não comprei um canal de TV. Ainda. Mas isso não me impede de ter clareza sobre o que funciona, o que desgasta e o que pode, de fato, construir algo relevante. Conteúdo inteligente ainda tem espaço. Só falta quem queira bancar.