Em Torres, no dia 23 de dezembro do ano que terminou, uma psicopata deu continuidade a um assassinato em série através do envenenamento de um bolo com arsênio. Sua empreitada psicopática ceifou a vida de três pessoas e causou a internação de outras. A família tinha convivência harmoniosa, mas com casos de divergências ocorridos há muito tempo envolvendo a assassina, presa temporariamente, a sogra que foi internada e recebeu alta e uma prima do seu marido que veio a falecer.
Tal caso assombroso confirma a ideia de que é preferível ter um inimigo declarado a um falso amigo. Outro chavão internético adaptável ao caso diz que as marcas negativas trazidas em nossa mente não foram causadas por gente inimiga. De quem, declaradamente, nos odeia, independentemente da vileza da causa do ódio, esperamos o pior e, quando não contamos com nada positivo vindo daquela criatura, nos protegemos, nos defendemos e, havendo o mínimo de sensatez, não convivemos. Não convidamos para nossa casa, não fingimos cortesia, não confiamos, enfim.
O ano de 2025 começou lindo e prenhe de mais belezas e alegrias advindas da premiação de Fernanda Torres no Globo de Ouro pela interpretação de Eunice Paiva no filme ‘Ainda estou aqui’, de Walter Salles, adaptação do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva. Concorrendo na categoria ‘melhor atriz em filme de drama’, Fernanda foi a primeira mulher brasileira a conquistar o prêmio, prelúdio do Oscar, mostrando ao mundo que, como ela diz, “a vida presta” e é necessário resistir, na arte e na luta, ao fascismo dos apologistas da ditadura militar e da morte daquela que deveria ser a amante de todo vivente sensato, a democracia.
Da belíssima cerimônia de premiação, das postagens em redes sociais, tanto as sérias como as cômicas realizadas pelos fazedores de memes, brilhou a torcida animada de Selton Mello, colega e amigo de Fernanda que interpretou, no filme, a vítima assassinada pela ditadura militar, o deputado federal Rubens Paiva. Selton ficou em êxtase quando Viola Davis anunciou o nome de Fernanda que, outrora, se confessou fã de Tilda Swinton, com a qual concorria. A talentosa atriz britânica enalteceu a colega brasileira e o cinema brasileiro.
Além de Tilda, Fernanda concorria com Kate Winslet, Nicole Kidman, Pamela Anderson e Angelina Jolie. Inolvidavelmente, para quem ama a democracia, tal premiação foi a ocorrência mais feliz desde a eleição (2022) e posse de Lula (2023). O filme de Salles mostra ao mundo o horror que a ditadura militar foi capaz de fazer neste país. Um dos horrores, na verdade.
As atitudes de Selton para com a brilhante colega demonstram tudo o que se espera de quem convivemos, de quem chamamos de amiga: incentivo, afeto, torcida, atos e elogios doces e sinceros. No caso, sinceros, mas convenhamos que declinar da franqueza quando vemos um amigo empolgado e feliz com algo do qual não gostamos ou compreendemos não é ruim. Às vezes a sinceridade é superestimada.
Amizades não são espaços para a inveja e competição de egos, tampouco para a sinceridade deseducada e deselegante. Nem todo amigo invejoso e rancoroso vai lhe envenenar, mas é criatura perigosa. A inveja é mãe de gente de alma pobre capaz de enganar e usar a intimidade enquanto, ao contrário de Selton, torcem contra o seu sucesso, pois não querem que você tenha a graça, o talento e o sucesso que tem. Creio que seja de Zuenir Ventura a frase segundo a qual cobiça é desejar o que o outro tem e inveja é não querer que o outro tenha.