Damage

Cláudia de Marchi

Hoje encontrei essa crônica escrita em 07/05/2023. Na época eu tinha um artigo para escrever e inúmeras leituras pendentes, mas tal qual a filha fútil de um herdeiro, fui conferir a minissérie Desejo obsessivo, adaptação do livro Damage de Josephine Hart, que, em 1992/1993, foi adaptado para o cinema com excelente protagonismo de Jeremy Irons e Juliette Binoche. No Brasil, chama-se Perdas e danos. Bakhtiniana que sou, evito comparações entre adaptações, pois trata-se de enunciados distintos, porém, neste caso, não consegui me conter até mesmo porque o diálogo entre as obras é enorme, inclusive nas cenas de sexo intenso entre os amantes.

No ano de 2008, o livro virou ópera, Damage, an Opera in Seven Meals pelo talentoso compositor grego Kharálampos Goyós sendo exibida no Festival de Atenas. Enfim, sobre a minissérie: mesmo sabendo o fim trágico naquela belíssima escada, eu gostei muito. A atuação do Richard Armitage é formidável. Para além de ser um homem muito sexy que, inclusive, oferece um belíssimo nu frontal, o ator entrega, na cena do hotel em Paris, uma atuação intensa que mescla paixão, tristeza extrema e desejo incontrolável. É triste, é belo, é arrebatador e, também, é horrível.

Ao contrário do filme de Louis Malle a adaptação recente é mais empoderadora. A personagem mulher “causadora” de toda a trama tem uma vida permeada por um abuso sexual hábil a justificar a sua vontade de dominar os homens que conquista. Ela não é passiva, mas extremamente egoísta. Quer o prazer extremo sem olhar o outro com responsabilidade, o seu egoísmo é doentio, apesar de ser psiquicamente exausta como toda mulher. É uma sobrevivente, e como ela mesmo diz, pessoas sobreviventes são perigosas, pois sabem que podem sobreviver. E ela sobrevive obliterando o caos no qual se insere, novamente, como partícipe. Ela assume para si a responsabilidade por algo que não ocorreria sem alguém, no caso, o pai do seu noivo.

A série supera o filme até em seu final, pois aperfeiçoa os detalhes. Não faz da paixão, um sentimento tão passível de dor quanto sublime, algo que se supere pelo simples passar dos anos. Algo sintetizado na frase, no filme, quando, anos após, ele a enxerga num aeroporto ou estação de trem, e diz: “Eu a vi, e ela não era diferente de ninguém”. Na minissérie ele a encontra e, praticamente, lhe diz que o pior ambos causaram e passou, então por que não continuar? Ele tem razão, apesar do seu pragmatismo áureo. Ele sente amor. Ela é indiferente. Na verdade, pouca paixão se vê naquela mulher abusiva e autocentrada. De mais a mais, um ponto: na série a diferença de idade entre o casal de amantes diminui consideravelmente uma vez que a mulher é mais velha do que o namorado e o sogro é um belo exemplar de homem de meia idade.

Ora, ninguém sai imune a uma grande paixão! Deixa-se um pedaço de si, leva-se uma parte do outro. Paixões arrebatadoras não são meras paixões no sentido vulgarmente utilizado por quem usa aplicativos de relacionamento e se apaixona 3 vezes em um mês. Paixões intensas consomem um pouco da nossa alma ao mesmo tempo em que nos torna plenos em seus melhores momentos. São pensamentos, é o desejo, são as vontades, as saudades. Ninguém sai ileso de uma paixão intensa e verdadeira e, também neste aspecto, a adaptação atual do texto da Josephine Hart reina soberana e sensata.