Cláudia de Marchi
O que existe mais próximo da morte em vida é a apatia, o comodismo, o seguir adiante por seguir, a desconexão do ser humano consigo, o cultivo melancólico, a negação de dores e sentimentos, a fuga dos processos de luto e dissabores. É o estar sem estar de alma presente. É a falta de sabor, de tesão, de desejo, de pulsão de vida. É o tal do “estou aqui, porque é fácil, estou aqui, pois acostumado e não preciso pensar a respeito, basta viver um dia após o outro com a certeza e, eventual, anseio pelo fim fatal, a minha derradeira salvação!”. Essa é a perda do interesse pela vida sobre a qual Fernanda Torres, muito jovem, porém sábia, falou ser seu maior medo em entrevista concedida à Bruna Lombardi.
Tem quem perca tal interesse aos 30 anos e viva o resto da vida na inércia, no tal do “ir levando”, tem quem perca aos 70 e viva até os 80 anos, suportando dez anos de horror tedioso. A perda da curiosidade, do ânimo, da vontade de ouvir, de viver com todos os sentidos e emoções que fazem a alma vibrar é morrer em vida. Crer-se demasiadamente sábio, demasiadamente bom, correto e justo, é perder o interesse pela vida, porque todo dia é hábil a ensinar algo, toda pessoa, todo momento, toda paixão, toda angústia, inclusive! Se eu cheguei ao ápice das experiências humanas, se tudo sei, se prego minha sabedoria ao mundo, que interesse eu terei na vida, sendo eu uma espécie de deus que tudo conhece e domima?
Em Caótica, na crônica Nem vivas, nem mortas: o modo híbrido de existir, disserto um pouco sobre este assunto que termina sendo reincidente na vida de uma cronista que se apavora diante da ausência de libido sciendi e ânimo de vida de toda sorte de pessoas. A covardia me assombra, a melancolia me apavora, o saudosismo me anoja, a inação diante do descontentamento e a reincidência em reclamações sem que atitude alguma seja tomada, me causam ojeriza. Quedar-se inerte fazendo sempre o mesmo por falta de coragem de fazer o mesmo juntamente com outra coisa que faça a sua alma vibrar é cortar os próprios pulsos enquanto rasga os seus impulsos.
Existir fazendo o necessário para viver, ostentar, ter algum prazer de praxe, ocupar o tempo ao máximo, se esquivar da autoanálise e da psicanálise, do autoquestionamento, enquanto se imerge em autocomplacência e autopiedade é o grito obscuro dos covardes que já morreram, mas ainda vagam vida a fora existindo, fugindo de si, aplacando anseios e desejos, jogando-se ao estoicismo enquanto aguardam o fim com ou sem a esperança vã de uma vida indolor após a sua partida.
Eu chamo de feliz a vida intensa e apaixonada que tenho! Grandes lutos, ódios homéricos, muitos lamentos, imensos rejúbilos. Vivo presente em cada momento da minha vida. Por isso a amo, por isso me amo. Por isso, também, sinto pena infinita de todo ser humano que reclama do que permite. Que se perdeu de si, que não sabe bem quem se tornou ou o que quer sentir e viver. Gente que se acostumou, gente que acha que fez tudo o que quis e pode, logo, não há mais graça em nada em sua vida, gente que existe na pulsão da morte, gente de “missão” liquidada.
Acho lastimável o comodismo, acho hediondo o conformismo com o que não faz os olhos brilharem, com o que não anima ou encanta. Há tanta gente por aí existindo morta, apenas aguardando o dia de seu sepultamento, de darem a sua carne para os vermes comerem ou virarem pó, após a cremação. Há covardia na melancolia, na tristeza que se cultiva, na arrogância que declara o fim sem encarar o luto doloroso pelas perdas: a falência da empresa, a decadência do casamento, a rejeição de alguém, as pequenas frustrações cotidianas, tudo o que nos dói, por menor que seja. É mais fácil negar mágoas e mimetizar ânimo e paz de espírito enquanto a alma seca por dentro. É assim que morrem as pessoas que ainda existem e vagam por aí com pose altiva, ostentando vaidade, mas sem orgulho de si.
Eu não sou assim, nunca serei. Sou apaixonada e cheia de energia demais para quedar-me inerte, enquanto, melancolicamente, remonto a um tempo que já passou e passo a viver na ausência, imergindo-me no que me falta, sem ver graça no que existe de belo na vida e está ali, presente, ao alcance dos meus olhos e mãos. “A melancolia é a felicidade de ser triste”, disse Victor Hugo. E o que é a felicidade na tristeza se não o acomodamento humano diante dela? Para melancólicos crônicos e depressivos, há sempre a terapia para a melhor compreensão do eu e abertura de novas possibilidades de vida. Essa inconstante que sempre muda na qual, se desejarmos, nós podemos mudar para melhor.
Enfim, a vida precisa ser interessante e animada no momento presente: no amor, na dor, na alegria, no desencanto, no seguir adiante, no viver com doçura e entrega! E viver requer nossa presença constante, nossa ação, nossos autoquestionamentos, nossa reflexão: não podemos e sequer conseguimos fugir de quem somos. Estamos condenados a ser nós mesmos, tentemos, então, ser uma versão cheia de ânimo e vontade de aprender em cada segundo. Sou por uma vida epicurista, sou por uma vida brilhante!
