- Cláudia de Marchi
O silêncio fala! Quiçá não seja uma fala sincera, pois ele deixa espaço para o arbítrio alheio preenchê-lo. E isso é bem perigoso: quem cala pretende sujeitar o outro ao seu silêncio olvidando de que, silenciando, se sujeita às mais distintas interpretações.
As palavras são amigas, o silêncio não é. As palavras clareiam, o silêncio escurece. As palavras são sol, luz, alegria; o silêncio é nublado, escuro, triste. Só o que é claro ilumina! A obscuridade causa ansiedade, transtorna e tortura. A falta de clareza é o oposto do que é profícuo, positivo e belo. Ela maltrata!
Mentir? Enganar? Distorcer fatos ou sentimentos? Não, isso nunca! Prometer o que não se tem certeza de que pode ser cumprido? Baixo, vil, tolo. Palavras, sim, palavras sempre: esclarecedoras para fulminar qualquer esperança vã, sinceras para alimentar o que é doce, genuíno e especial. A transparência salva o tolo da ilusão inútil e anima sentimentos sinceros e honestos.
Palavras francas ditas do fundo do coração, não promessas medíocres e egoístas. Aliás, toda promessa é desnecessária: não se promete amor, não se promete futuro, não se promete nada. Nosso único compromisso deve ser a sinceridade e a doçura amorosa em fazermos o nosso melhor por nós e por quem amamos. Agir da melhor forma possível, com empatia e franqueza, esse é o único objetivo.
A gente ama e vive o amor, não se promete amar eternamente. A gente quer a companhia do outro, o corpo, as palavras, a presença, os toques, os beijos: não se promete estar para sempre, porque a vida é inconstante e quase tudo o que é prometido termina descumprido. Viver não deixa espaço para promessas, mas deixa para atos e palavras sinceras, honestas e carinhosas, deixa para o amor genuinamente sentido e que deve ser intensamente vivido.
Sem espaço para questionamentos que podem e devem ser preenchidos com um franco e quiçá amargo “não”: Ah, será que ele gosta de mim? Não gosta, se gostasse você não teria dúvida. E outra: quem valoriza ser “gostada” é adolescente. Uma mulher adulta e bem resolvida quer ser amada, valorizada e cuidada. E, na dúvida sobre o amor, debanda. Foge!
Ah, mas será que ele não é muito ocupado? Se fosse você também não teria dúvida e, ainda assim, se sentiria cuidada e bem quista. Quem ama não quer perder, portanto, se esforça e cuida de forma a não deixar dúvidas sobre o que sente por menor que seja o seu tempo, por mais corridas que sejam as suas horas. Ah, será que ele não é uma pessoa muito insegura? Não é, se fosse, ele diria ou, no mínimo, deixaria claro que ama você, apesar de seu descompasso interior.
Na dúvida, ele não lhe quer. Na dúvida, ele quer outra. Na dúvida, ele deseja essa outra. Na dúvida, ama outra pessoa. Na dúvida, não quer sequer amar! Na dúvida, ele não deseja estar com você. Na dúvida, ele nem sequer gosta de você o suficiente para dialogar, ser transparente e sincero, pois isso seria se expor e isso é uma característica única de quem quer muito a companhia da outra pessoa. Busque a clareza, clareza sempre! Silêncios são o oposto da transparência honesta e do belo brilho com os quais se edificam relações maduras e prazerosas, perenes ou duradouras, mas sempre indolores. Ora: dor não, dor nunca!
A falta de clareza advinda da ausência de diálogo honesto gera insegurança e dores homéricas: é desumano ter que preencher lacunas, então entenda-as como refugos e pare de fazer elucubrações positivas diante do que é, pura e simplesmente, negativo: não quer você. Não gosta de você. Não deseja você. Não quer ficar com você. Não quer dar mais do que o mínimo para você. Não merece você! Pare de ser indulgente com ausência e desamor, enquanto inventa sentimentos e situações que não existem no mundo real. Apenas pare. E sofra caindo na real.
- Cláudia de Marchi é mestra em Letras, escritora e advogada.