Cláudia de Marchi
Se você veio da costela do sujeito criado a partir do barro, eu não vim.
Eu sou poeira das estrelas!
E não quero acreditar, quero saber. Ademais, antes ser poeira das estrelas do que “resto” de costela de homem.
Se você defende entidades que nunca viu, imerge em orações, mas sorri, gargalha e goza pouco na vida, eu lhe desdenho com minha existência livre!
Minha prece é ser e tentar ser feliz na maior parte do tempo!
É sorrir, gargalhar e aproveitar o melhor da vida.
Em todos os aspectos.
Para mim o céu é uma barganha e o inferno uma ameaça.
Não anseio por um, não temo o outro.
O inferno, para mim, são os seres humanos!
O inferno é a hipocrisia de quem propaga virtudes que não possui.
O inferno, às vezes, é minha mente ansiosa e inquieta que se autodetermina contra o meu arbítrio racional.
O inferno é a desigualdade social deste mundo louco repleto de gente egoísta e pérfida.
O céu?
O céu é toda espécie de prazer que tenho na vida!
Um bom jantar.
Um bom vinho.
Um bom livro.
A companhia terna de quem eu amo e os bons momentos que vivo com quem me apraz e, por alguma razão e instantes, cativa.
O céu sou eu pisando na areia de uma praia contemplando o céu azul.
O céu é uma tarde de leitura num dia cinza.
O céu é minha mente quando está serena; é meu corpo depois do gozo.
Sou poeira das estrelas e tenho em mim sonhos e desejos que não permito a ninguém menosprezar.
Gozo plenamente da minha liberdade de ser mulher!
Não temo pessoa alguma.
Nem entidades invisíveis inventadas para me aprisionar e comandar!
Eu não sou domável!
Não tenho medo de bípedes. Na verdade, de alguns eu só tenho nojo.
E por outros sinto um misto de asco e de ódio.
Porque eu sou imperfeita, meu senhor!
E aceito tal condição.
O único objeto capaz de me causar medo é meu cérebro quando tenho crises de ansiedade que transformam minha mente num inferno colossal. Porém, nunca sem motivo, nunca gratuitamente.
Fora isso, me permito vivenciar o meu céu.
E manter-me distante de quem é inferno.
Gente que recalca seus desejos para parecer, aos outros, virtuosa é infernal!
Eu não evoluí bilhares de anos para conviver com gente infeliz, melancólica e carregada de culpa.
Sou poeira de estrelas e só me permito optar pelo céu, mesmo que, contra a minha vontade, a vida me obrigue a encarar o inferno!
A vida é feita de sensações e de momentos.
E saber disso me dá paz!
Vivi o suficiente para saber que nada, absolutamente nada, é eterno!
Nem o meu céu, nem o meu inferno.
- Essa crônica pertence ao livro ‘Caótica’ que será lançado no dia 29/03 às 16h no Terezas Café.
