Cláudia de Marchi
Eu tive três grandes paixões em minha vida, a primeira foi o meu ex-marido (2005), a última foi o ex-amante (2022) que será sepultado da minha escrita com o lançamento de Caótica, no dia 29 deste mês e, entre um e outro teve o Bruno (2016), o mais curto dos romances. Como todos com quem estive, ele era um fã, acompanhou a minha fama na mídia e já chegou até mim encantado. Sobre ele nunca escrevi muito, pois foi uma relação que começou imensamente fraudulenta e terminou com excesso de transparência e verdade. A respeito do amor, pouco sei, mas desconfio: não vinga sem admiração moral e intelectual, consequentemente, enumero esses homens como paixões, não amores, provavelmente o amor seja algo bem distante desse tragicômico trio, talvez o amor supere diferenças enquanto cresce na medida em que o outro se revela, de forma oposta, a paixão arrefece pela mesma causa.
Bruno era um cara bem-sucedido e um pouco mais jovem do que eu. Quando me contatou mostrou-se confiante, além de bonito e educado. Aceitei recebê-lo! Pessoalmente era ainda mais bonito, pois tinha um corpo perfeito, típico de nadador. A química foi excelente! Ele me transferiu o valor do excedente do tempo que ficamos juntos, praticamente contando os minutos/centavos, achei elegantíssimo e, se bem me lembro, foram bem mais de duas horas.
Fizemos amizade no Facebook, dias após ele voltou com a mesma fineza. Me convidou para irmos para Caldas Novas, pagou o final de semana, me buscou e lá nos divertíamos como um casal. Um belo casal, diga-se de passagem. Ele era natural de Minas Gerais e filho de pai que abandonou a família completamente, o que lhe gerou um trauma. Bruno era a minha versão masculina não apenas pela proporção áurea da qual ele entendia magnificamente, mas porque ele também não queria ter filhos, acreditava no sexo como termômetro das relações e, como eu, seu personagem predileto em séries famosas era o Dr. House. Escrevendo isso me sinto ridícula além de medíocre, mas, continuarei. Gosto de afinidades, elas facilitam qualquer relacionamento.
Como eu sou uma mulher que não consegue se interessar por sexo com outros homens quando tem “hiperfoco” num, comecei a dispensar os meus raros parceiros para estar com o Bruno somente. Eu sou uma mulher fiel quando apaixonada, consegui fazer isso enquanto acompanhante de luxo, imaginem quando tenho uma relação monogâmica minimamente funcional? Tem quem me chame de trouxa, mas sou condenada a ser assim e fico feliz, pois usufruo plenamente dos prazeres que estar com quem nos cativa a atenção e a libido têm. Enfim, eu inventava desculpas para os outros, continuava mentindo no meu blog e transando loucamente com o Bruno que me pagava cada minuto com fineza, reverência e respeito ímpares.
Ao fim de 2016 ele foi passar as festas com a família em Minas Gerais e eu fiz o que ainda não havia feito: stalkeei o Facebook dele com esmero! Imaginem a minha surpresa quando me deparo com uma esposa e dois filhos? Fiquei estarrecida! Como conversávamos direto perguntei o porquê da mentira, ele só soube me pedir desculpas e dizer que não sabia a razão. No entanto, pensei que ele queria conquistar acompanhante famosa, mas terminou se apaixonando, enquanto buscava lã, Bruno saiu tosquiado. Ele sabia que eu ficaria com ele se soubesse do seu estado civil e família, mas não me apaixonaria, então mentiu e conseguiu o que desejava. Um grande feito naquela época, não nego.
Eu briguei, mas não consegui manter o não e o afastamento, ele menos ainda. Ele pagava para estar comigo, seria contraproducente não o encontrar. Ao longo de nossa relação ele brigou com a mulher, procurou lugar para morar, passamos belos momentos no Royal Tulip e, ao fim, a decisão foi pelo nosso afastamento. Fiquei arrasada, mas eu não teria condições de ser companheira de um homem com filhos pequenos, pois crianças não são o meu forte, prefiro pets.
Sofri, evidentemente. Bebi, tomei remédios para dormir, afinal sofro minhas quedas plenamente, mas, antes de encarar o luto, tendo a buscar o afogamento da dor. Sou uma pessoa que nunca gostou de dormir ou teve facilidade com o prelúdio da morte que é o sono, então eu buscava formas medicamentosas para ficar inconsciente e, por algumas horas, não sofrer. “Morrer, dormir, dormir, talvez sonhar”, sou uma claudicante signatária de Hamlet.
Escrevendo Caótica fiz um balanço dos meus relacionamentos amorosos e cheguei à conclusão de que eu nunca idealizei os meus parceiros, embora eles tenham me idealizado. O último, o ex-amante, me idealizou quando nos conhecemos virtualmente, em 2020, e fez o mesmo após ser desbloqueado no WhatsApp numa mudança de número de telefone sucedida da incursão presencial de um na vida do outro, em 2022.
Éramos ótimos na arte da adivinhação recíproca entre duas pessoas anormais, pois ele era e eu continuo sendo uma criatura esquisita, “a mulher indecifrável” segundo a poeta magnífica, Mar Becker, prefaciante do meu novo livro. Certa vez tal indivíduo me mandou um vídeo de Sob medida, do Chico Buarque, letra que não carece de nenhuma erudição para ser compreendida. Ainda em 2022 me disse que, apesar da minha energia divina e sexual, eu sou uma florzinha frágil e delicada. Todavia, a minha fragilidade em tal momento era típica de bombas, não de flores, coisa constatada por ele, ainda em janeiro de 2023, quando eu estabeleci a primeira briga. Eu mudei, não era mais a acompanhante cálida e doce que vinha, quinzenalmente, passar um dia em sua companhia. De uma fáustica pesquisadora e cronista me tornei o próprio Mefistófeles diante daquela criatura mortal. A calidez se manteve, pois nunca a perdi.
Ao longo do tempo ele usou palavras autodepreciativas fortíssimas para se definir. Eu discordava, pois atacando a si parecia estar ofendendo a mim. Certa vez propôs uma festança em sua casa quando determinada circunstância ocorresse, brinquei com ele no Instagram dizendo que, infelizmente, eu não poderia ir, ele respondeu que sim, eu deveria ir, pois para “doçuras a gente dá um jeito”. Fiquei bastante agoniada com tal resposta e rememorei a música: ele, realmente, achava que éramos iguais, mas eu presto, eu sempre prestei!
Posteriormente, em conversas nas quais a sua passivo-agressividade brilhava, pois eu já havia falado o que penso acerca da sua hipocrisia esquerdomacha, ele me chamou, elegantemente, de “julgadora moral” e “moralistinha”. Se ter conceito ruim de gente que leva uma vida dupla e/ou imersa em liberdade idiota para levar casamento até o fim da vida é ser isso, então eu sou doutora em moralismo com pós-doutorado em julgamentos morais ainda que eu seja autocentrada e a vida alheia não exerça, em mim, nenhuma forma de fascínio, tampouco me desperte o interesse.
A constatação de formas tão distintas de pensar me mostrou que eu fui enredada por mero apaixonamento, pois não há amor sem admiração moral e, neste quesito, éramos extremamente opostos, totalmente diferentes. Eu não concordo com 99% do que ele fala e pensa e o oposto também ocorre. Verdade seja dita, tal relação só teve um mínimo folego por conta da distância física e do fato de eu ser acompanhante de luxo, do contrário aquele homem nunca obteria o privilégio de tocar em mim, menos ainda de me chamar de “julgadora” enquanto me julgava ou me falar, com ar doutoral, que sou jovem, impetuosa e inexperiente, mas com a idade dele entenderei os seus argumentos. Se decurso de tempo for sinônimo de lobotomia talvez um dia eu concorde com os conceitos mortificados de amor e relacionamento daquele ser humano.
Que decepção deve ter sido para ele descobrir que a amante, já ex-cortesã, é uma mulher briosa, cheia de amor-próprio e bom senso, ferrenha opositora da infidelidade conjugal costumeira e de casamentos baseados em aparências e terceirização do sexo. Embora o sujeito tenha me dito que não terceirizava o sexo comigo, não compreendi a negação, mas deduzi que o homem afortunado de testosterona transava com a amante linda e com a esposa de aparência estética duvidosa. O sujeito é, basicamente, um misto de Odisseu com São Jorge! Porém, ao lembrar dele remonto ao Riccardo Cocciante: “Povero diavolo che pena mi fa!”. O Bruno era mais interessante e menos narcisista. O Bruno não era um esquerdomacho.