Cláudia de Marchi
A infidelidade conjugal costuma ser o maior temor de pessoas que vivem relações monogâmicas. Trata-se de um medo natural, pois o ser humano teme e evita a rejeição. É demasiado ardido para o ego ser substituído na vida de quem se ama, ainda que temporariamente, por outra pessoa. De acordo com Maria Rita Kehl, para a ferida narcísica a viuvez é menos dolorosa, pois é um fortuito: a pessoa morreu, ela não praticou o abandono voluntariamente.
Quando se fala em traição em relacionamentos amorosos é comum as pessoas empatizarem com a pessoa traída, pois, ao menos teoricamente, é ela quem sofre a dor maior, essa, a de se sentir menor, inferior, possivelmente humilhada pela rejeição. Como uma boa fã da Vitimologia, no âmbito da Criminologia e do Direito Criminal, desde a minha graduação em Direito, tendo a ser parcimoniosa na concessão da minha empatia com gente corna.
Não acredito, portanto, que pessoa alguma acorde num belo dia e, sem razão nenhuma, apenas por uma espécie de ímpeto incontrolável, resolva flertar com outra pessoa, beijar, ter sexo e compartilhar momentos carinhosos e ardentes com ela. Voltando ao ramo da Criminologia referido no parágrafo anterior, sou interessada no estudo da vítima no aspecto psicossocial, dentre outros. E a “vítima” do chifre é a pessoa corna.
Em Vitimologia estudei o conceito de vítima provocadora. Não vou me ater a sua conceituação, pois em termos leigos ele é autoexplicativo. Durante toda a minha vida eu tive preconceito com cornos. Perco o entusiasmo quando um homem que intenciona ter uma relação séria comigo conta que foi traído, pois logo penso: “Qual tipo de defeito este bípede apresentou para ser corno?”, acho broxante, enfim.
Em nossa sociedade, pelo fato de a infidelidade masculina ser normalizada, praticamente defendida para mantença de relações longevas, o agir infiel por parte das mulheres sempre me intriga. Mulheres costumam trair por vingança, traem com base em algum erro masculino e, por não terem coragem de encarar a vida sozinhas, mantêm o relacionamento e eventuais escapadelas afetivo-sexuais.
No âmbito deste agir covardíssimo de terceirizar o sexo e outros bons sentimentos com o fito de levar casamento morno e insatisfatório ad aeternum, os homens são os reis, afinal, para que encarar a solidão, a possibilidade de rejeição, a vida sem um arrimo avalizador da sua autoestima se é possível ter outra ou outras e fingir amor (eterno) para a esposa?
Ostentar um casamento bem-sucedido que se prolonga eternamente para as amigas e os amigos que não lograram encontrar a sua cara metade há décadas é ostentação pura! Exibição aos reles mortais que passaram e passam pela vida sem conviver com sua alma gêmea: demonstração de sucesso de acordo com o mainstream hipócrita. Existem pessoas cujo ego não se sustenta sem a reverência alheia, nisso, exibir um casamento perfeito e família bela e unida, é tarefa essencial.
Apesar de eu saber e conhecer profundamente essa realidade do universo masculino não deixo de perceber a mulher traída como vítima provocadora em potencial. Da mesma forma que desconfio do talento amoroso, do trato afável e da desenvoltura sexual e, claro, emocional dos machos chifrudos.
Conforme já atestei, o desejo de estar com outras pessoas não é sanha misteriosa e imprevisível, mas uma construção edificada sobre o desmoronamento do ânimo, do desejo, das afinidades outrora máximas, no presente minoradas, das expectativas, da alegria de um na companhia do outro no passar dos dias, dos meses, dos anos. E nada disso ocorre sem a exibição de uma série de sintomas e de indícios muitas vezes tão óbvios e explícitos quanto uma prova.
A criatura traída é, costumeiramente, autocentrada e desatenta, quando não exibe, também, aquela característica abominável: a autoconfiança delirante. Esse delírio que, fazendo com que uma pessoa se imbua da certeza segundo a qual será eternamente amada, passe a dispersar da atenção e do cuidado dado ao parceiro ou a parceira. Cuidado é essencial para qualquer amor fluir com potência e doçura. Sentir o outro, captar a energia do outro e, assim, zelar pelo bem do relacionamento.
Exceto nos casos em que surge um imprevisível apaixonamento por alguém inserido na rotina da pessoa, uma colega, um colega, às vezes até um amigo ou amiga, a decisão de estar na companhia de alguém é sucedida por vários sinais. Na verdade, não sei se esse apaixonamento inesperado pode surgir quando uma criatura está plenamente feliz na união com a outra. Acho improvável.
Antes da pessoa relapsa vir a ser traída ela dispersou muita coisa, eis a regra. Não digo com isso que a infidelidade seja defensável, afinal o diálogo é sempre a melhor opção. Colocar as cartas na mesa, dizer o que dói e descontenta e, assim, envidar esforços para a recuperação do sentimento e da energia dispersada, se isso for possível. Crer, no entanto, que a pessoa corna é uma inocente vítima é desvario, pois, se não sempre, nove em dez vezes ela não é.
Por fim, também existe o ser humano corno resignado, o condescendente. Parceiro ideal da pessoa acomodada que tem medo da solidão e da rejeição. Juntos eles formam o casal de união eterna: o amor erótico e saudável se foi, resta a dependência emocional recíproca entre os covardes que, provavelmente, não amam nem a si mesmos. Um aceita ser traído e o outro traí, para se distrair e voltar inteiro para casa. É uma relação moebiana calcada na falta de vergonha na cara de ambos. Tudo pode, menos declinar da relação. Vigora a pulsão de morte, afinal o amor é força potente, mas só o acovardamento e o comodismo mantêm eternas as relações pendentes de declaração de fim.
Como relacionamentos são trocas, como relacionamentos amorosos são relações edificadas sobre a base da admiração recíproca, do desejo erótico, das afinidades de energia, de pensamento e, inclusive, de loucuras, não se cria ou cultiva uma relação em uma via de mão única. Consequentemente, abordar a infidelidade sem observar a conduta da pessoa traída é um erro. Nesta questão não existem pessoas totalmente culpadas, tampouco totalmente inocentes. A vida (felizmente) é mais rica e complexa do que uma música brega.