‘Suíte’: instalação com esculturas em madeira de Zé Carlos Garcia em diálogo com tela de Iberê Camargo / Foto: Divulgação
Onze meses após a maior tragédia climática já registrada no Rio Grande do Sul, a 14ª edição da Bienal do Mercosul foi finalmente inaugurada na última quinta-feira, em uma Porto Alegre ainda em processo de reconstrução. O evento, que havia sido adiado devido às enchentes de 2024, agora ocupa 18 espaços culturais da capital gaúcha, com obras de 77 artistas de diferentes partes do mundo, reafirmando a importância da arte como força vital em momentos de crise.
Com curadoria do carioca Raphael Fonseca, ao lado dos curadores adjuntos Tiago Sant’Ana e Yina Jimenez Suriel, e da curadora assistente Fernanda Medeiros, a mostra parte do conceito de “Estalo”, uma ideia de ruptura e percepção sensível, refletindo as transformações sociais, políticas e ambientais contemporâneas.
Arte como resposta ao trauma coletivo
A enchente histórica que afetou diretamente 46 bairros da cidade em abril de 2024, deixando mais de 180 mortos e milhares de desabrigados, ainda ecoa nas paredes manchadas e nos espaços públicos em restauração. Parte das obras e intervenções da Bienal respondem, direta ou indiretamente, a esse contexto.
“Era impossível não ser impactado. Muitas pessoas da equipe moravam em Porto Alegre e precisaram sair de casa de lancha”, lembra Raphael Fonseca. “Mas não queríamos fazer uma Bienal que literalizasse a tragédia. Com o adiamento, os artistas tiveram tempo para aprofundar suas pesquisas e complexificar os trabalhos.”

‘Zé Ninguém’. Obra de Ismael Monticelli, no Pop Center — Foto: Divulgação/Thiele Elissa
Espaços reabertos e novos territórios ocupados
A Bienal também é um marco simbólico da retomada da vida cultural da capital. Espaços históricos como o Farol Santander e a Usina do Gasômetro, duramente atingidos pelas cheias, reabriram suas portas com exposições inéditas. Além disso, a mostra se expande para novos territórios, como o Museu da Cultura Hip Hop RS e a Cinemateca Capitólio, ampliando o diálogo com diferentes públicos e linguagens.
Na Fundação Iberê Camargo, localizada às margens do Guaíba, a instalação “Suíte”, do artista sergipano Zé Carlos Garcia, estabelece um diálogo entre suas esculturas em madeira e obras de Iberê Camargo. As figuras híbridas, com extremidades esculpidas em mãos e cabeças humanas, evocam tanto delicadeza quanto violência.
“O nome remete a uma suíte musical, como se essas figuras dançassem. Há suavidade, mas também uma tensão na maneira como foram esculpidas, com machado e facão”, explica Garcia. “É minha primeira vez em Porto Alegre, e fiquei impressionado com a efervescência cultural da cidade, mesmo após tudo o que aconteceu.”
Performance, pintura e cosmologia andina
No Margs, a artista porto-riquenha Awilda Sterling-Duprey, de 78 anos, realizou a performance “Blindfolded”, pintando uma tela com os olhos vendados ao som de música, em uma proposta que une corpo, gesto e cor.
Ainda no centro, o artista e arquiteto boliviano Freddy Mamani transformou a fachada da Fundação Ecarta, na Cidade Baixa, com uma pintura inspirada na iconografia andina.
“Essa arte representa a irmandade entre os povos. Foi emocionante sentir a resposta das pessoas. Estamos contribuindo para essa mudança de ânimo que a cidade precisa”, afirmou Mamani.

Tela “Uma solução prodigiosa para um problema barulhento”, de Felipe Rezende, no Centro Cultural Vila Flores — Foto: Divulgação/Thiele Elissa
Uma Bienal com fôlego global e alma local
Com mais de 70% das obras comissionadas especialmente para esta edição, a Bienal do Mercosul reafirma sua relevância internacional. Participam artistas de países como Inglaterra, Lituânia, China, Tailândia, Taiwan, Coreia do Sul, Singapura, além de diversas nacionalidades das Américas.
No Farol Santander, o público pode conferir obras de Nam June Paik, Yunchul Kim, Berenice Olmedo, Claudia Alarcón, Marina Rheingantz, entre outros. No MAC-RS, a instalação “Teoria geral do Babalu Atômico”, de Randolpho Lamonier, propõe uma experiência sensorial e crítica.
Reconstrução e resistência pela arte
Mais do que uma grande mostra de artes visuais, a 14ª Bienal do Mercosul se impõe como um gesto coletivo de resistência, resiliência e reconstrução. Em uma Porto Alegre marcada pelo trauma, a arte surge como ponto de encontro, provocação e esperança.
“A Bienal não vem para apagar a tragédia, mas para dialogar com ela, para oferecer outras formas de ver e sentir o que vivemos”, conclui Fonseca.
A programação completa, com exposições, performances e ações educativas, segue até 2 de junho de 2025, com entrada gratuita em todos os espaços.
Serviço – 14ª Bienal do Mercosul
🗓️ Período: 27 de março a 2 de junho de 2025
📍 Locais: 18 espaços culturais em Porto Alegre
🎨 Artistas: 77 nomes de diversas partes do mundo
💰 Entrada: Gratuita
🔗 Mais informações: bienalmercosul.art.br

Instalação ‘E pesadiya a libra mi di mi soño’, de Tirzo Martha, artista de Curaçao, na Usina do Gasômetro — Foto: Divulgação/Cristina Beck

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