A nova “Vaca Sagrada” do jornalismo esportivo

A decisão tomada há mais de um ano pelo jornal britânico The Guardian de banir propagandas de sites de apostas em suas páginas foi, sem dúvida, uma atitude corajosa que merece destaque. Em um mercado onde o dinheiro dita regras e pode comprometer a credibilidade de veículos de comunicação, o posicionamento do The Guardian é uma rara demonstração de independência editorial. Mas o que essa decisão significa para o Brasil de 2024, onde a presença das apostas no esporte e no jornalismo só aumenta?

No Brasil, ao contrário do Reino Unido, o mercado de apostas cresce de forma descontrolada e as casas de apostas se proliferam como nunca. As BETs chegaram ao mercado esportivo como uma solução rápida para a crise financeira que afeta clubes e federações. Com a saída de patrocinadores tradicionais, o dinheiro das apostas parecia ser a salvação para muitos times e eventos esportivos. Mas de onde vem esse dinheiro e qual é o impacto real dessa injeção financeira.

O estudo “O efeito das apostas esportivas no varejo brasileiro”, publicado pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo, mostra que quase 40% dos entrevistados já fizeram apostas online, e mais da metade deles utiliza parte da renda principal para tentar a sorte. Não é apenas uma questão de entretenimento, mas de comprometimento financeiro, com 63% dos apostadores relatando que sua renda foi afetada. E isso se reflete diretamente nos hábitos de consumo: redução de gastos com vestuário, alimentação e até cuidados com a saúde.

O relatório do Itaú, no boletim Macro Visão, estimou que R$ 68,2 bilhões foram gastos em apostas no Brasil no último ano. Para se ter uma ideia do impacto, isso representa 0,2% do PIB brasileiro e quase 2% da massa salarial. É um montante extraordinário, especialmente em um país onde a renda média do trabalhador é baixa e o endividamento das famílias atinge níveis recordes.

Um dado estarrecedor foi divulgado pelo Banco Central em agosto deste ano, de que empresas de apostas online receberam R$ 3 bilhões de beneficiários do Bolsa Família. Esse valor, que deveria servir para garantir o mínimo de dignidade a milhões de brasileiros, está sendo redirecionado para uma indústria que, em muitos casos, se aproveita da vulnerabilidade financeira e emocional das pessoas.  A análise técnica do Banco Central sobre o mercado de apostas online no Brasil revela uma realidade preocupante. Com valores mensais de transferências para as chamadas “bets” variando entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões. Em um país onde a renda média do trabalhador é baixa e o desemprego afeta milhões de famílias, essa transferência de recursos para o mercado de apostas online reflete um grave problema econômico e social.

A dependência financeira do esporte brasileiro em relação às casas de apostas é evidente. Clubes, federações e até mesmo transmissões esportivas se apoiam nesse recurso. Em abril de 2023, um estudo apontou que 51 clubes, das três principais divisões do futebol nacional, eram patrocinados por alguma casa de apostas. Ao todo, 23 casas diferentes destinavam fundos a esse tipo de patrocínio. Se, por um lado, o dinheiro das BETs alivia as contas dos clubes, por outro, ele compromete a economia familiar.

A partir de outubro, os sites de aposta que não solicitaram autorização para operar no Brasil serão retirados do ar. Só vão continuar a operar as bets que já estão funcionando e que pediram autorização para o Ministério da Fazenda dentro do prazo determinado. As empresas que estiverem fora dessa condição serão consideradas ilegais. Pelo menos 115 empresas de apostas esportivas já pediram autorização de funcionamento. O prazo para conclusão da análise dos primeiros pedidos recebidos é até dezembro deste ano.

Estima-se que mais de 500 operadoras atuem no país, movimentando mais de R$ 12 bilhões ao ano.  Enquanto isso, o investimento estimado em publicidade e patrocínio é de R$ 3 bilhões. A situação é um paraíso fiscal para as operadoras e um pesadelo ético para o jornalismo esportivo. Com tanto dinheiro em jogo, a linha que separa o jornalismo isento da propaganda velada é cada vez mais tênue. O risco de os comentaristas esportivos serem vistos como promotores de apostas é real.

É inegável que a nova legislação é um avanço, mas não há nenhum regramento para a propaganda das casas de apostas e seus vultuosos investimentos. Em tempos difíceis de financiamento para o jornalismo, ninguém quer renunciar a anunciantes. Estamos vendo uma novíssima “vaca sagrada” sendo erguida bem no centro das redações do jornalismo esportivo.

Uma investigação do Ministério Público de Goiás levantou centenas de provas que trouxeram à tona um dos maiores escândalos do futebol brasileiro. A “Operação Penalidade Máxima” apontou o envolvimento de jogadores em um esquema de manipulação de resultados de partidas. Revelações de jogadores subornados para forçar cartões amarelos, gols ou até derrotas deixaram chocados os amantes do esporte. O debate aqui é sobre “conflito de interesses na mídia”.

O que está em jogo é mais do que a credibilidade do jornalismo esportivo; é a própria integridade do esporte e a confiança do público. A ausência de regulamentação adequada para a publicidade cria um terreno fértil para abusos. Enquanto isso, a propaganda de apostas invade não só a programação esportiva, mas também programas de variedades, transmissões ao vivo e até mesmo as redes sociais de clubes e atletas.

A ausência de regras para a propaganda das casas de apostas é um convite ao abuso. Com muito dinheiro envolvido, esses anunciantes dominam as transmissões esportivas, são tema de discussões em lives e eventos festivos. As apostas esportivas são a nova “vaca sagrada” do jornalismo brasileiro, expressão utilizada para se referir a temas ou instituições tratados como intocáveis ou inquestionáveis dentro do jornalismo, algo considerado imune a crítica ou questionamentos, por diversas razões — políticas, financeiras ou culturais – mesmo que mereçam um escrutínio mais rigoroso. Estamos assistindo ao surgimento de uma nova entidade intocável no coração das redações esportivas.

O Projeto de Lei 3.563/2024, que tramita no Senado, se aprovado, proibirá a publicidade, o patrocínio e a promoção desses jogos em diversas mídias, incluindo rádio, televisão e internet. A iniciativa foi apresentada pelo senador Randolfe Rodrigues. O senador ressalta que o projeto não visa acabar com as apostas, mas regular sua exploração comercial para que ela aconteça de forma responsável e transparente. Entre as principais mudanças, estão a proibição da exploração comercial de apostas em eleições e a vedação de qualquer forma de publicidade sobre apostas em mídias de massa. Segundo o parlamentar, cerca de 25% da população adulta brasileira já participa de jogos on-line.

O senador destaca que, atualmente, mais de 100 empresas já solicitaram autorização ao Ministério da Fazenda para operar legalmente no país, “mas muitas ainda atuam à margem das regras, promovendo propagandas sem qualquer controle. Essa prática irresponsável cria um ambiente propício para abusos e fraudes, prejudicando não apenas os consumidores, mas também a imagem do esporte e da mídia que se associam a essas empresas.”

Mas, como todo projeto de lei que busca regular um mercado bilionário, a proposta enfrenta forte resistência. A indústria de apostas é hoje uma das maiores patrocinadoras do esporte brasileiro, financiando clubes, eventos, transmissões esportivas e até mesmo profissionais da mídia. O corte desse tipo de patrocínio teria um impacto negativo nas empresas de comunicação, especialmente em um momento em que outras fontes de financiamento estão escassas, mas é um debate que precisa ser feito, como antes o país teve de fazer com a questão do cigarro e das bebidas alcoólicas. O que chama a atenção é a ausência total do jornalismo esportivo neste debate.