Capa do LP Música Popular Gaúcha. Créditos: Rogério Ratner

A MPG e o tempo fora de hora

No início dos anos 1980, Ayrton dos Anjos, conhecido como Patineti, talvez o mais importante produtor musical do Rio Grande do Sul, estava no Rio de Janeiro, quando logo após um show com artistas do movimento nativista, o produtor carioca, Albino Pinheiro, lhe desafiou com a seguinte pergunta: O que mais há por lá? Patineti não vacilou e lascou na hora: “tem a MPG”.  

Quando ele criou esta sigla, definiu uma identidade para um movimento não organizado que acontecia em Porto Alegre, onde a diversidade musical era a base do negócio. Era uma relação de identidade com a chamada MPB (Música Popular Brasileira). A ideia de universalidade sempre esteve presente no DNA da MPG, tinha de tudo, todos os estilos, do regional ao rock. Compositores que apenas mostravam que exista no Rio Grande do Sul mais do que música nativista. 

A sigla MPG desagradou alguns, mas foi criativa e serviu para definir uma ideia de música contemporânea feita aqui no estado. É apenas uma sigla, não define um estilo musical, porque o grande barato é exatamente não ter um estilo único, era simplesmente uma maneira de dizer que esta era a MPB feita no Rio Grande do Sul. Tinha elementos regionais, misturados com bossa nova, tropicalismo, samba e rock. Era uma fusão da MPB com o regional.

A diversidade musical sofreu preconceitos em Porto Alegre. Se tivemos a ditadura do chamado nativismo, veio depois a do rock dos anos 1980, que ao contrário de tudo o que representa o comportamento roqueiro, foi um movimento preconceituoso e que mandou para casa muita gente boa. E todos sabem o quanto gosto de rock, mas vivi de perto este período e sei bem o que aconteceu. 

O jornalista André Barcinski, da Folha, fez a frase clássica da época onde afirmava que estava cansado da “bunda-molice da MPB”. Virou herói de uma geração. Virou moda destruir Caetano Veloso, Gil e Cia. Nada diferente do que fez Lobão, os chamando de “afeminados”, “atrasados” e muito mais. 

No Rock brasileiros dos anos 1980 os negros ficaram de fora. Mesmo produzindo muita coisa boa, o rock por aqui nesta época era música de branco. Os próprios nordestinos ficaram de fora do mercado. 

No Rio Grande do Sul, as rádios abandonaram os novos compositores gaúchos que não fizessem rock, as gravadoras fizeram o mesmo, quem ousasse fazer outro tipo de música era careta e bunda-mole. 

Nomes que poderiam ter tomado conta do país, como Nélson Coelho de Castro, Bebeto Alves e Nei Lisboa, ficaram para trás. Nenhum deles deixou de ser talentoso por conta do que aconteceu, mas se firmaram fundamentalmente em um mercado basicamente regional. Pela qualidade das canções, poderiam e deveriam ter tido uma repercussão nacional muito maior.

Nos anos 1970, Roqueiros como Raul Seixas e Rita Lee souberam misturar as influências da música popular brasileira que acontecia na época, estavam abertos a tudo. Mutantes a mesma coisa, gravando com Gil e Caetano. É fato, nos anos 1970, a diversidade convivia melhor. Em Porto Alegre, podemos apontar o Liverpool, formado por Mimi Lessa (guitarra), Edinho Espíndola (bateria), Fughetti Luz (vocal), Pekos (baixo) e Marcos Lessa (guitarra base), reunia uma variedade de sons. Esse era o grande barato. O Liverpool tinha influências do rock clássico, da tropicália e da Bossa Nova e fez sucesso com músicas de compositores como Carlinhos Hartlieb e Hermes Aquino. 

Em 1975, no dia 13 de agosto, no Cine-teatro Presidente, Júlio Fürst lançou o primeiro evento do histórico “Vivendo a vida de Lee”, uma reunião de artistas fundamentais como Almôndegas, Hermes Aquino, Fernando Ribeiro e Arnaldo Sisson, Gilberto Travi e Cálculo IV, Status 4, Inconsciente Coletivo, Nélson Coelho de Castro, o Utopia, de Bebeto Alves e outros, como Palpos de Aranha, Mantra, Bizarro e Bobo da Corte. A diversidade era a marca do evento. 

A sigla MPG chegou depois de tudo isso, sem nenhuma pretensão maior que não fosse a de apontar para um grupo de artistas com um trabalho urbano e acima de tudo contemporâneo. Em 1982, com três dias de shows no Teatro João Caetano, no Rio, confirmou-se o talento desta geração e a aceitação do público fora do Rio Grande do Sul. 

Em 1984 foi lançado o histórico disco “MPG – Música Popular Gaúcha”, reunindo Nico Nicolaiewski, Elaine Geissler, Zé Caradipia, Giba Giba, Gelson Oliveira, Galileu Arruda, Sá Brito, Glória Oliveira, Nyaia, Suzana Maris, Nando Gross (sim, o próprio) e Mauro Kwitko. 

Antes, em 1978, outro disco clássico, o inesquecível Paralelo 30, com Carlinhos Hartlieb, Cláudio Vera Cruz, Bebeto Alves, Raul Elwanger, Nélson Coelho de Castro e Nando D’Avila. 

A MPG marcou uma geração e espalhou shows por todo o estado como nunca antes tinha se visto. Uma época fantástica e uma geração inquieta e talentosa.