A morte da inteligência no mundo

Cláudia de Marchih

            Não é novidade para mim o óbito de coisas sumamente necessárias nas pessoas: o bom senso, a educação, a fineza, a gentileza, a doçura e a inteligência. Entretanto, como tirei “férias” da advocacia, do magistério e da vida acadêmica de 2016 até 2021, o meu convívio social era basicamente inexistente: minha mãe, meus gatos e meus parceiros remunerados, todos submetidos ao meu crivo misândrico e régua curtíssima com qualquer mísera tolice ou deselegância.

            Com a pandemia e meu retorno ao Rio Grande do Sul meu ânimo com o meu período sabático arrefeceu e eu resolvi estudar. Cursei um semestre de História, conheci o Fausto, do dramaturgo Christopher Marlowe, e resolvi pesquisar tal obra no mestrado, em 2021. Foi uma maravilha, rendeu um livro, um amor e o doutorado! Não necessariamente nessa ordem. Porém, neste ínterim, existiram pedras no meio do caminho. As chamo de pessoas. Pessoas idiotas e emocionalmente atrofiadas, para ser mais exata.

            Durante o mestrado tive um colega que assistia a aula deitado e cometia fiascos absurdos com a câmera. Era risível, mas irritante. Na mesma fase, uma criatura resolveu me perguntar, em uma aula do meu orientador, se eu gostava “mesmo” do Fausto. Por acaso alguém pesquisa algo do qual não goste? Eis uma pergunta retórica.

            No doutorado, inicialmente, enfrentei um horror numa disciplina que apelidei de “pautas identitárias”, da qual declinei, inclusive. Noutra, afirmei que Annie Ernaux, embora vítima do machismo, do descaso e de um assédio terrível num momento de fragilidade, não se vitimiza em O acontecimento e uma colega que, inclusive, era das mais participativas na matéria de identitarismo, se opôs com tanta veemência que o professor precisou intervir em minha defesa, concordando comigo.

Um outro colega, escritor, em plena segunda-feira de manhã, não leu o livro indicado, É isto um homem?, de Primo Levi, e se sentiu plenamente à vontade para falar por longo tempo do nazismo demonstrando total falta de bom senso e respeito com a professora e colegas, afinal, o debate era sobre o livro que ele não leu, não sobre as fontes usadas por ele em uma de suas obras literárias. Sim, prezada leitora, prezado leitor, não superestimem a inteligência, tampouco o caráter de alguém só porque a criatura é escritora. O mérito da criatividade profícua pode existir desassociado de muitas virtudes.

            Outro colega, em seminários de apresentação, gostava muito de opinar sobre a pesquisa dos outros com autoridade doutoral. Não fez o mesmo comigo, pois eu sempre o “cortava” e, no período da enchente, quando tivemos aula na modalidade síncrona, eu não economizava belas reviradas de olho durante suas intervenções desnecessárias. Continuei fazendo o mesmo quando voltamos presencialmente. Aliás, eu não disfarço as minhas expressões faciais quando fico desconfortável. E nem tento fazê-lo.

            No segundo semestre do meu doutorado, uma colega de outra linha de pesquisa, pediu ajuda em uma tarefa passada pelos professores e começou a indagar sobre o meu passado numa conversa cheia de estigmas e daquela arrogância hedionda que costuma exalar de conversas de cristões neopentecostais. “Eu não tenho preconceito, tenho uma amiga que é ‘garota de programa’”, disse ela. Ao que eu respondi, dizendo que eu tenho preconceito com a maioria das prostitutas, acho tenebrosa a designação “garota de programa” ou “do job” e que não tenho nem nunca tive amizades com tais profissionais. Apelei para a arrogância para constranger a criatura idiota que também me desejou um futuro feliz com um “homem bom”, sem sequer saber se desejo me casar.

Em ‘Caótica’, a crônica A comunicação idiota é uma “homenagem” à essa pessoa tosca. Nela eu falo sobre esse tipo horroroso de ser humano, incapaz de perceber expressões faciais e de praticar o bom senso que se sentaram em minha frente e estabeleceram, sozinhas e com o seu ego adoecido, um diálogo do qual eu nunca desejei participar, apenas despejavam o seu preconceito travestido de condescendência:

Opiniões não pedidas são desnecessárias, porém algumas pessoas têm uma visão tão ególatra de si e da sua importância no mundo, logo, obliteram tal fato. Coincidência, em minha experiência, é o fato de, em sua maioria, essas criaturas serem teístas. Elas acham que a sua divindade lhes acompanha, então elas “possuem” o direito divino de falar o que pensam para você.

E não, não falo aqui de ideias negativas, longe disso. Falo, apenas, de opiniões e ideias que não apenas careceram de solicitação, como não lhe interessam em absoluto. Nem todas as pessoas, claro. Mas sempre uma pessoa. E é por isso que, hoje mais do que nunca, eu prefiro evitá-las ao máximo. (DE MARCHI, 2024, p. 157)

            O grupo de WhatsApp dos discentes da pós-graduação é um mal quase sempre desnecessário. Eventualmente há alguma informação válida, de resto é uma fonte constante de um único questionamento: “Como uma pessoa dessas está fazendo mestrado ou doutorado?”. Existem uma série de respostas, mas acredito que se trate de mera fruição de um privilégio de classe.

            A burrice de pessoas inseridas em um local cultural privilegiado me arrepia. São pessoas sem a mínima habilidade de se informar corretamente. Gente com preguiça de pensar e, o que mais me assusta, sem a mínima vergonha na cara. Ora, o que fazemos é, basicamente, pesquisa! Como uma pessoa incapaz de se localizar em site de revista, de evento ou no da própria instituição de ensino na qual estuda pretende ser pesquisadora?

            Talvez isso seja o retrato da geração que louva a inteligência artificial. Querem respostas prontas, pois fazer inferências se tornou algo difícil demais. Semana passada foi lançada mais uma pesquisa que demonstra os efeitos nocivos do uso da IA. Vejo a situação ainda mais preocupante no caso das pessoas desprovidas de inteligência natural ou demasiadamente preguiçosas.

            A preguiça de pensar não é inocente. Não é atributo de gente idônea. Optar pela burrice e pela ignorância é coisa maléfica, pois faz com que se aceite o inaceitável sem questionamento da realidade: cristãos defendendo Israel, um Estado genocida; bípedes circunstanciais alegando o “antissemitismo” de quem questiona o horror; mulheres ansiando o papel de esposas convencionais; jovens homens aderindo a movimentos misóginos e uma série de outros horrores, incluindo igrejas e coaches de toda espécie.

Tenho reverência ao esforço de quem veio antes de mim. Na pesquisa acadêmica, por exemplo, sou totalmente avessa ao uso da inteligência artificial. Nas minhas pesquisas, claro, na dos meus e das minhas colegas não interfiro, pois não me interessam. Eu quero evitar acomodar o meu cérebro e farei isso enquanto eu puder: um pouco de esforço não faz mal, no caso intelectual, faz bem. Leituras e conhecimento nunca é suficientemente abundante.

 O termo “moderno” foi usado ainda no período medieval para designar as pessoas afetas às novidades em oposição aos defensores da sabedoria dos antigos que, por sua vez, para depreciá-los, usavam o termo “moderni”, pois eles seriam “anões sobre os ombros de gigantes” da Antiguidade (Piacentini, 2011, p. 143), os apequenados que só vislumbravam o horizonte, porque tinham um lugar privilegiado para se assentar.

Eu estou em um lugar privilegiado: o Google, para mim, é ferramenta suficientemente potente na construção de belas pesquisas. E, através dele, podemos ter contato com escritos dos “gigantes” de outrora, daqueles e daquelas pesquisadoras que construíram suas pesquisas frequentando, presencialmente, bibliotecas, digitando em máquina de escrever ou em computadores rudimentares. Sou uma “moderni” com a crença de que, em tal período, a maioria dos frequentadores dos meios intelectuais eram mais autênticos, pois menos preguiçosos.

Referências:

DE MARCHI, Cláudia. Caótica. Porto Alegre: Grillo, 2024.

PIACENTINI, T. A cultura popular na Idade Moderna: questões. Revista Pedagógica, Unochapecó, ano 14, n. 27, v. 2, jul./dez. 2011. Disponível em: https://bell.unochapeco.edu.br/revistas/index.php/pedagogica/article/view/1303/717. Acesso em: 01 jun 2022.