A mão prejudicada e outros prejuízos: um pouco sobre a minha exaustão

Cláudia de Marchi

A minha interessante vida é marcada por profundas mudanças não planejadas. Cheguei até aqui com muitas vivências para poucas décadas de vida. Os meus pais resolveram se divorciar pouco tempo depois de eu me formar, como não tiveram outros filhos enfrentei o processo de luto da minha mãe sozinha. Em virtude de ela ter deixado de trabalhar quando casou o fato de depender da pensão do ex-marido me gerou ansiedade financeira. Antes do divórcio deles eu fui obrigada a romper com a minha primeira sócia pouco tempo depois de terminar um namoro de quase 3 anos. Conheci meu ex-marido meses após e fugia da situação ruim da minha família estando com ele.

Sujeito instável, relação turbulenta. Eu brigava, voltava. Morei com ele, abdiquei, conheci outro, namorei, o sujeito me stalkeava, terminei com o menos conhecido para me casar com o cidadão obcecado que me emprestou o sobrenome por um tempo. “Por que você correu para uma floresta pegando fogo?”, perguntou meu psicanalista e psiquiatra poucos meses depois. Eu nunca soube ao certo a resposta, mas creio que, na época, eu me visse como uma imbatível e gigantesca mangueira de água. Pretensões delirantes de uma jovem mulher que sabia pouco, quase nada da vida, mas se sentia sábia. Delírios juvenis!

Dispersei da minha profissão e quando, realmente, deixei aquele homem em meu passado, a minha vida estava virada do avesso. Em 2012 eu estava muito cansada e resolvi não viver mais, porém meu plano falhou e eu me internei por 15 dias. Nessa época o meu pai que, aparentemente, se divorciou também de mim, vivia pedindo ajuda financeira. Eu fazia o possível e, num belo momento, comecei a me sentir fracassada, pois não podia fazer mais. O homem apareceu milagrosamente para me visitar na clínica onde fui parar, também, por causa dele e das suas súplicas irreais e ensandecedoras.

Na sequência eu conheci um psiquiatra forense de Porto Alegre, logo ficamos noivos, mas eu desisti do casamento às vésperas da cerimônia. Resolvi fugir e ir morar no Mato Grosso, sempre com minha mãe junto de mim. Em 2013 fui trabalhar com um primo e, em 2014, graças a um ex-namorado fui trabalhar com o melhor criminalista da região. Fiz um júri que me rendeu boa fama na cidade, fui contratada na universidade de Direito local e, quando eu estava para me tornar sócia do escritório o meu colega precisou me dispensar do trabalho, com muita lástima, porque a esposa grávida tinha ciúmes de mim. Sofri horrores com tal injustiça, segui lecionando, sofri um assédio de um habitante do local e, em fevereiro de 2016, início do semestre letivo, fui dispensada da faculdade sem justa-causa.

Me emputeci com a vida, em abril saquei meu FGTS e fui para Brasília com a certeza de que eu ficaria famosa. Dei para minha mãe o prazo de três meses até isso acontecer. Ela não me deixou contar para o meu pai da minha mudança, pois eu poderia não gostar de ser acompanhante, todavia, o homem já estava cansado de ouvir eu dizer que, “se mais alguma coisa” desse errado na minha vida eu viraria puta. A fama veio meses antes do esperado e, em poucos dias no Distrito Federal, minha mãe teve que contar para o ex-marido, pois eu fiquei assustada e extenuada com entrevistas e pessoas atrás de mim.

Vejam bem: tudo isso ocorreu em três anos e, é claro, eu não havia descansado das mudanças e frustrações de planos anteriores quando comecei a ter que militar pela liberdade de poder dizer não a homens que eu não queria por uma ou outra razão, precisei erguer a voz para dizer que prostituição não é “estupro mediante remuneração” e que é possível ter liberdade de escolha em tal vida que, como qualquer outra, não é fácil, mas a minha era bem divertida e doce. Eu me sentia uma proletária contra o capitalismo vivendo uma vida com mais “capital” e menos sofrimento financeiro e afetivo. Usei os machistas e o mainstream a meu favor, enfim.

Às vésperas do lançamento de Caótica um problema começou a me causar ansiedade: eu não consigo pegar canetas com a posição correta, minha letra é um desastre e, para não colaborar, eu tremo quando ansiosa. A mão ferrada se deve a uma circunstância ocorrida em 2019. Um dos meus parceiros, o advogado gaúcho poderoso sobre o qual falei ternamente na crônica sobre os esquerdomachos, estava saindo do cargo que ocupava no Conselho Federal da OAB e, assim, deixava de ir mensalmente para Brasília. Como mais inventei do que falei a verdade em meu blog e livro despublicado em 2023, eu tinha um número parco e certo de amantes remunerados, consequentemente, com tal fato eu perdi R$ 4.000,00 mensais, o valor da minha noite naquela época.

Eu estava padecendo de ansiedade odisseuca pensando como organizar a minha vida e a minha mãe não me deixava pensar vindo com ideias assustadoras. Naquele período eu tinha o hábito de tomar coquinha zero com limão numa taça de vinho. Em plena segunda de manhã eu pedi para minha querida mamãe me deixar em paz pensando, mas ela insistia. Em dado momento eu estava deitada com a taça do lado com coca quando explodi e bati com força naquele “macio” cristal. Minha mão rasgou e minha mãe me levou para um hospital particular na Asa Norte, onde morávamos. Os médicos fascistóides, empoderados com a posse do seu candidato, identificaram o meu nome. Me deixaram sangrando por mais tempo apesar de estarem desocupados. Na hora de suturar fizeram 2 pontos com tranquilidade e, no local onde deveriam fazer mais 3 não “conseguiam” anestesiar. Dias depois eu percebi que o meu movimento de “pinça” foi prejudicado. Eu não conseguia mais segurar caneta ou escrever direito.

Março de 2020 foi o último mês em que eu fui a Cláudia livre, com a mão prejudicada, mas vivendo a vida que quis viver. De maio de tal ano em diante eu vivi a vida que eu pude viver e me tornei ainda mais refém de coisas independentes da minha vontade. Em 2021 eu reatei um namoro e fui trabalhar com um ex que já era ex desde 2011. Foi um horror, terminei o namoro, reabilitei o meu site e número de celular e 4500 pessoas foram desbloqueadas, inclusive o sujeito excêntrico do qual me tornei amante em 2022.

Quando eu pisquei estava esperando uma bolsa que é inferior ao valor do “problema” causador da minha mão adoentada e, nos momentos vagos, eu esperava um homem sentindo ódio e nojo de mim mesma. Como não sei ser “meio” alguma coisa aprendi a viver com menos, uma vez que o meu avô paga o meu aluguel. Eu, realmente, não sou uma pessoa cara, me contento fácil e sei me virar com pouco, afinal eu sou advogada há mais tempo e por mais tempo do que fui acompanhante de luxo. Acima de tudo, porém, eu sou uma mulher cansada que só não tem um total colapso, porque escreve. Eu escrevo para me salvar.