Cláudia de Marchi
Prezadas mulheres: homens bons sofrem. Os idiotas, os egoístas, os narcisistas, eu não sei, atesto que eles fazem sofrer, mas homens de coração bom, homens generosos, homens doces e homens amáveis não tem uma vida isenta de dores. Na verdade, em muitos aspectos, a vida não é fácil para pessoas boas e decentes.
Sim, o machismo faz os homens sofrerem e essa crônica é, antes de tudo, um olhar empático sobre a dor masculina. Creio ser sensato que nós, mulheres, apesar de sermos oprimidas na sociedade patriarcal, não ignoremos dois fatos: a importância do apoio masculino ao feminismo e o quão infeliz um homem decente pode se tornar em virtude da educação recebida ao alvedrio da sua vontade.
Desde crianças, aos meninos se lega menos afeto, há um impedimento, por parte de muitas mães e muitos pais, da expressão emocional deles. Não desejam que eles chorem, que brinquem de boneca e sejam mais delicados. Aos poucos essas pequenas criaturas se tornam castradas em sua habilidade de expressão de suas fragilidades humanas, demasiado humanas.
Essa cultura foi amenizada na atualidade, dependendo das famílias, mas outrora isso era regra. Logo, os bons homens, os que têm empatia com as mulheres, tendem a sofrer em demasia com a reverberação das vozes dos seus tutores e familiares em sua vida presente. Isso vai da dificuldade de expressão sentimental e íntima até a autocobrança para ser “bem-sucedido”, termo aqui entendido como ter sucesso profissional e muitos bens materiais.
O etarismo, filho do machismo, assola a saúde mental de homens de meia-idade, não pela cobrança estética, mas pela cobrança de sucesso, de conta bancária farta, de “vida ganha”, de casamento longevo e de uma esposa feliz ao qual o homem bondoso se dedica imensamente, quase se tornando uma vítima de seus caprichos. A educação machista é democrática na distribuição de desgraças: prejudica mulheres e homens sob vieses distintos.
E, não olvido aqui do quão mais prejudicadas nós somos, vê-se pelos altos índices de feminicídios e agressões de toda ordem que os homens praticam, mas, verdade seja dita, um agressor deve ter uma mente extremamente prejudicada. A maioria deles são vítimas que se tornam vitimizadores. Eu mesma fui casada com um abusador emocional e psicológico e posso atestar que eu jamais desejaria viver os tormentos da mente daquela criatura.
O capitalismo é o rufião de todos independentemente de gênero e orientação sexual. De acordo com o mainstream, das mulheres se espera beleza e candura, dos homens bens materiais e força. Não lhes é permitido afirmar fraqueza, tampouco se sentir fraco. Na briga masculina ególatra com outros machos ou consigo, o homem se compara com o ideal do sujeito forte, provedor, intelectual e financeiramente poderoso. Das mulheres não se exige o mesmo, aliás, desde que sejam bonitas, se perdoa eventual tacanhice intelectiva.
Em nome da estética corporal mulheres morrem em procedimentos desnecessários e outras se estragam com resultados questionáveis sob o prisma da proporção áurea. Em nome da ostentação material – afinal, “para que serve se matar por dinheiro se não é possível ostentar?”, pensam as pessoas mais frívolas e rasas – os homens perdem o equilíbrio e se descompensam quando se sentem em prejuízo, frustrados ou frustrantes.
Os homens, sobretudo os que nasceram em ambientes com privilégio de capital cultural, mais ainda os oriundos de famílias economicamente abastadas, não foram psicologicamente preparados para derrocadas, para perdas e frustrações, porque esse preparo perpassa o reconhecimento de que não é preciso (ou sequer possível) ser forte e inabalável o tempo todo. E isso a educação machista lhes tolheu.
A agressividade masculina, felizmente, nem sempre direcionada às mulheres, é oriunda do recalque emocional que é imposto aos meninos. Eles não nascem mais agressivos, eles são afetivamente forjados na agressividade, pois não podem ser “delicados”, “emotivos” e “sensíveis”, dessa forma, a competitividade com outros meninos e, após, homens, é uma forma de extravasar seus ímpetos agressivos.
A comparação, elementar ao ato de competir, é a fonte de todos os males para todas as pessoas do mundo. São raras as pessoas capazes de olhar para si com carinho e compreensão, são raras as pessoas com a feliz habilidade de perceber as diferenças elementares da vida de cada um: meio familiar, opções de vida, desenvolvimento célere ou lento da maturidade, entre outros detalhes importantíssimos que justificam o porquê de determinada pessoa ser como é e estar onde está.
Aos homens, por conta da dificuldade de expressão de sentimentos e da masculinidade tóxica que até os mais evoluídos possuem, sofrem ainda mais com isso. Sensação de insuficiência, sensação de fracasso na vida profissional ou financeira, alguns se sentem decepcionantes em seus relacionamentos amorosos, inseguranças diversas e ansiedade, não raras vezes, travestidas de comportamento vaidoso ou, ao contrário, em retraimento depressivo.
Os homens adoecem calados e, seguidamente, tentando ser demasiado suficientes para quem amam, enquanto amargam as suas dores, medos e frustrações em silêncio. Ser homem é, frequentemente, ser solitário. Reconhecer em seu sofrimento a base capitalista de suas sensações ajuda. Reconhecer, em seus pensamentos e condutas, o reflexo da criação machista que tiveram ajuda mais ainda. Tentar mudar para ter uma vida mais plena e feliz consigo mesmo, deve ser o objetivo.