Reprodução de páginas da revista Placar de agosto de 1987.

A vergonhosa cobertura da imprensa gaúcha no caso do estupro de Berna

Em 1987, quatro jogadores do Grêmio foram acusados de estuprar uma criança de 13 anos em Berna, na Suíça. O caso, amplamente documentado pelo jornal suíço “Der Bund”, revela não apenas a brutalidade do crime, mas também o papel lamentável da imprensa gaúcha na época, que preferiu culpar a vítima, minimizar a violência e defender os agressores. 

Os fatos, conforme relatados pelo “Der Bund” em 1989, são chocantes: os jogadores Alexi (Cuca), Eduardo, Henrique e Fernando atraíram a menina e dois amigos para o quarto do hotel com a promessa de camisetas do clube. Uma vez lá, expulsaram os meninos, trancaram a porta e abusaram sexualmente da garota. Testemunhas relataram que ela saiu do quarto visivelmente traumatizada, vestindo apenas a camisa do Grêmio. 

No depoimento à polícia, a vítima afirmou que ficou paralisada de medo, sem conseguir reagir. O exame pericial confirmou a presença de esperma de dois dos acusados. Apesar das tentativas iniciais de negarem o crime, os jogadores depois admitiram o ato, alegando “consentimento” — um absurdo, considerando que a vítima tinha 13 anos. 

Os quatro foram condenados à revelia a 15 meses de prisão por “atentado ao pudor com uso de violência”, mas, como o Brasil não extradita seus cidadãos, nunca cumpriram a pena. 

A Imprensa Gaúcha: Machismo, Vitimização dos Agressores e Desumanização da Vítima 

Enquanto a justiça suíça condenou os jogadores, a imprensa brasileira — especialmente a gaúcha — tratou o caso com escandalosa leniência. Em vez de denunciar o crime, colunistas e jornais culparam a menina, ridicularizaram a situação e defenderam os agressores. 

Alguns dos trechos mais revoltantes: 

– Paulo Santana (Zero Hora, 08/08/87): 

  “Os jogadores do Grêmio não assimilaram a mudança do fuso horário. Levaram um choque de costumes… agora é só torcer – no que acredito – que a justiça suíça faça justiça. Isto é, que ela encare o fato como realmente foi: uma travessura irresponsável.” 

O colunista conclui que estupro de uma criança seria apenas uma “travessura”. 

– Wianey Carlet (Correio do Povo, 08/87): 

 “Pense e responda: a) Uma garota que está sendo estuprada não grita? b) Se grita, ninguém ouve, mesmo estando num hotel? c) Havendo violência, a vítima não reage a ponto de ferir-se?” 

Aqui o colunista questiona a credibilidade da vítima, ignorando a sua idade e o fato de que muitas pessoas congelam diante de violência sexual. 

– Paulo Santana (Zero Hora, 29/09/87): 

 “Um deslize de ordem sexual em que, visivelmente, colaborou para sua consumação uma conduta, no mínimo, quase conivente da chamada vítima, não deve servir de amparo a uma decisão drástica.” 

O colunista acredita que uma criança de 13 anos seria “conivente” com seu próprio estupro. 

– Lauro Quadros (Zero Hora, 31/08/87): 

 “A moça Sandra, que seduziu ou foi seduzida pelos jogadores do Grêmio… E que moça bonita a Sandra. Uma mocetona. Nem parece que tem só 13 anos. Uma mulher com aquela beleza sempre causa complicação.”

  Lauro Quadros é um dos maiores nomes do rádio gaúcho, mas nessa coluna ele sexualiza uma criança e sugere que sua aparência justificaria o crime. A vítima tinha 13 anos.  

O Machismo Institucionalizado

  Os textos não apenas absolviam os jogadores, mas também reforçavam estereótipos misóginos: 

– Wianey Carlet (Correio do Povo, 29/08/87): 

“Violência? Claro que não. Ficou mais do que claro, pelo menos para mim, que não houve violência no ap. 204 do hotel Metrópole. Pode-se questionar, isto sim, o bom gosto dos envolvidos… Mas cores e sabores não se discute.”* 

Em resumo, o colunista explica que estupro seria uma questão de “gosto”. 

– Paulo Santana (Zero Hora, 23/08/87): 

  “O Cuca tinha uma única vantagem em estar incomunicável e atirado no catre da cela: não ter que explicar à mulher o acontecido com a garota.” 

A preocupação era com o constrangimento do agressor, não com a dor da vítima. 

Esse caso escancara o machismo, a cultura do estupro e a impunidade que permeavam não apenas o futebol, mas também o jornalismo esportivo da época. Enquanto a Suíça condenou os agressores, a imprensa gaúcha os tratou como vítimas de um “mal-entendido”.  Passados mais de 30 anos, é fundamental lembrar esse episódio para que nunca mais se repita. A sociedade evoluiu, e hoje não toleramos mais esse tipo de cobertura — mas isso não apaga o fato de que, naquele momento, a imprensa gaúcha falhou grotescamente com a vítima e com a ética jornalística. 

Que essa memória sirva de alerta: nenhuma “travessura”, nenhum “deslize” e nenhum “choque cultural” justificam violência sexual — muito menos contra uma criança.