Está cada vez mais difícil de se relacionar com as pessoas, porque elas conseguiram elevar a necessidade de afinidade em suas relações a um nível narcísico: não basta ser afim, elas querem, das amizades e dos amores, equivalência, igualdade. Querem ouvir da boca alheia concordância irrestrita. Enfim, a necessidade de identificação plena do ser humano tira de mim a vontade de conhecer pessoas e conviver com elas.
Algumas criaturas acionam o “modo guerra” quando ouvem uma opinião contrária à delas. E, dessa forma, terminam sendo rudes, deselegantes e pouco gentis. Aliás, a gentileza e a doçura estão morrendo no mundo e, nós, pessoas doces e gentis, precisamos perceber isso antes de permitirmos que um mundo cheio de gente egoísta e amarga sequestre a nossa delicadeza.
Respeitar a individualidade alheia é trabalhoso, logo, se o outro for idêntico a mim, eu não preciso me portar como um ser humano minimante decente e empático lhe respeitando, compreendendo as diferenças e, sobretudo, a origem delas. Origens familiares, educacionais e oriundas de aspectos inatos da própria personalidade. Se o outro for igual a mim a relação segue tranquila, oh que perfeição máxima!
Ora, pensar de tal forma facilita o trabalho dos estelionatários afetivos: basta fingir-se de igual e com tudo anuir para conquistar um lugar na vida dessas pessoas emocionalmente atrofiadas que querem encontrar no outro ecos de si. Tais pessoas são vítimas, pois, delas mesmas.
Sobre o estelionato afetivo, ele não é único em relações amorosas, acontece no âmbito das amizades também. Existem pessoas que se aproximam de nós fingindo apreço, apenas por curiosidade vã ou razões inidôneas assemelhadas, lobos vestidos de cordeiro para fuxicar sobre a vida alheia são campeões em forjar afinidades e concordâncias para fazerem suas vítimas se sentirem à vontade.
Eu mesma já fui uma vítima das golpistas de afeto, embora eu não seja uma pessoa que precise conviver com quem é idêntico a mim, eis minha mãe comigo há anos como prova! Não somos iguais em fortíssimos aspectos, mas nos respeitamos mutuamente e nos amamos: amor e respeito salvam qualquer relacionamento e dão azo a convívio harmônico e terno.
A forma das pessoas reagirem a contrariedades em redes sociais é um sintoma. Após publicar a crônica Apologia da não-maternidade neste blog, às vésperas do dia das mães e escrita com base em minhas opiniões pessoais sobre o assunto, me recordei das vezes em que ouvi absurdos por ser childfree. Com “L”, apesar do erro no sumário e título da crônica na primeira edição e publicação de Caótica.
Vivemos a era do acesso à informação e da idiotia plena. As pessoas resolveram se ofender, não apenas com a forma de pensar alheia, mas com a forma da outra criatura levar a vida! Recentemente, numa dessas postagens rotineiras e bobinhas no qual estou na academia, uma pessoa me disse, no Direct do Instagram, que sou “gordofóbica”. Por quê? Porque na postagem eu digo que me prefiro magra e não tenho anseio algum por hipertrofia muscular. Eu! O meu corpo, as minhas curvas, afinal não me interessa o corpo alheio, sobre ele não falo, tampouco escrevo.
Estando, as criaturas humanas, tão miseravelmente autocentradas, tão imensamente desequilibradas e ostentando narcisismo doentio, como conviver com elas sem se lesionar mentalmente? Desconheço resposta para essa pergunta. Acho de bom tom evitar o relacionamento com pessoas incapazes de ser contrariadas sem apresentarem agressividade, com pessoas arrogantes que se negam ao diálogo saudável e terno, com gente com quem a troca de ideias é dificultada pelo anseio por ter “razão” quando, na verdade, nada se trata disso, mas de oitiva empática e compreensiva.
Na ausência de bom senso, penso ser indispensável a distância para fim de mantença do equilíbrio psíquico e da saúde mental conquistada com esforço esmerado. Não convém, no âmbito das amizades e dos romances, conviver com quem procura, no outro, a exata reprodução de si mesmo, com quem nega a subjetividade alheia, pois deseja se ver na outra pessoa.
Das belezas das interrelações humanas o que tenho como mais nobre são as trocas de experiências e conhecimento. No outro reside a bela graça de não ser idêntico a mim. Se trata de uma pessoa nascida e educada em meio distinto do meu, com formações diferentes, com outras virtudes, com outros defeitos e traumas. A magia do bem querer, ao amigo, à amiga, ao namorado, é justamente sermos afins, apesar das diferenças. Eis o encanto! Infelizmente, sou rara também nisso. Me sinto sem par neste mundo no qual as pessoas buscam, mais do que semelhanças, mas alguém que concorde com elas em tudo, alguém que seja, nada mais nada menos, do que uma réplica de si mesmas.