Cláudia de Marchi – 1 –
Pragmático no grego pragmatikus, no latim pragmaticu, significa ser prático. Eu não sei explicar o porquê, mas acredito que somos condenados a ser quem somos. Temos, porém, a opção pelo cumprimento da condenação num inferno de dores dramáticas ou numa gangorra onde vigoram mais alegrias do que pesares. Sim, numa gangorra, pois a única constância na existência humana é ser inconstante: a morte é a situação plena de equilíbrio por excelência.
Desde muito cedo eu tinha opiniões bastante peculiares e práticas sobre tudo o que eu ouvia. Certa vez, ao fim da minha adolescência, ousei expressar uma delas para o meu pai que estava faceiro dirigindo seu caminhão novo. “Não me desafie assim, da próxima vez eu estaciono e faço o que nunca fiz!”, ou seja, me bateria. Entretanto, eu percebi, pelo barulho do motor, que ele estava se atrapalhando com as marchas, dito e feito: estragou a caixa de câmbio do caminhão novo. “Bem feito!”, pensei na hora. A minha raiva sempre teve energia potente e as minhas pragas avassalam pessoas que despertam o meu ódio primal.
Como não havia sinal de celular perto, ele foi aonde conseguiu e acionou o seguro. Teve tratamento 5 estrelas pela Scania, acho até que se divertiu com a própria estupidez. Eu comentei com minha mãe o quanto ela era fraca ficando quieta enquanto ele falava absurdos dos meus avós e tias maternas. Ela sempre foi uma mulher silenciadora, mas ardilosa e passivo-agressiva como costumam ser as pessoas obscuras que não sabem lidar com a própria agressividade de forma saudável.
Antes disso, muito antes disso, fomos morar em Uruguaiana, eu não tinha 10 anos de idade e ouvir ele se gabar da própria honestidade me causava desconforto e irritação. Ele, ao contrário de fulano, não comprava pneu receptado, ele, ao contrário de sicrano, não forjava roubo de carga, ele, o honesto! Ele que tinha um Verona com banco de couro nude, enquanto os colegas desonestos ostentavam carros e casarões. Ele pagava o financiamento da, não nego, belíssima casa que construiu num terreno que o sogro deu ao casal como presente de casamento. Pragmaticamente, diante de seus episódios megalomaníacos acerca de sua conduta ilibada eu pensava: “Mas, por que ele não faz o mesmo que esses caras de quem sente inveja?”. Enfim, para mim, com 9 anos de idade (!), o meu genitor não passava de um covarde invejoso da boa vida que os colegas dele conquistaram, enquanto ele alardeava virtudes. Eu nunca idealizei a perfeição do meu próprio pai, nunca tive nele a figura de um herói. Isso me soa bem brega e inverossímil. Aliás, eu jamais idealizei homem algum.
O meu primeiro namorado era um economista agroboy, fiquei com ele, abandonei a virgindade e conclui que eu não queria me casar com o sujeito. Nisso também sempre fui pragmática: se eu percebo que a relação não terá futuro, termino sem pestanejar. Namoros são prelúdios de casamentos, logo, não convém perder tempo com ninguém. Bem, este sujeito era rico e astuto, hoje é milionário. Depois teve outro, empresário forte, sonegação de impostos ao máximo. Na sequência, outro colarinho branco, receptação, descaminho, sonegação de impostos e, claro, dinheiro para comprar delegado federal! Um ganhou milhares de reais graças as minhas dicas de descaminho de vinhos. Ou seja: eu jamais ia querer um homem autocomiserativo e sem coragem como era o meu pai, cuja “virtude” ostentada, pragmaticamente, nunca serviu para nada.
Eu sou antinômica, além de pragmática. Nunca em minha vida eu usei roupas curtas e justas. Nunca usei cropped. Nunca malhei expondo o corpo, não por não gostar dele, inclusive porque o amo e, justamente por isso, não acho justo mostrá-lo para qualquer vivente por aí. Todavia, desde os meus 14 anos uso biquínis minúsculos já que minhas calcinhas, quando as uso, são todas fio-dental. Acho que a marca do bronzeado da roupa de banho tem que combinar com a peça íntima costumeiramente usada e, para não me incomodar com calcinha que teima em entrar dentre as nádegas, uso aquela que já está lá dentro, acomodadinha.
Há anos, quando eu estava na fase provisória da carteira de motorista que foi, posteriormente, cassada, pelo bem de todos e felicidade geral da nação, eu saí cedo do escritório, pois estava me sentindo mal. Fui para casa repousar e, de tardinha, resolvi ir para o clube fazer hidroginástica. No curto trajeto atropelei um motoqueiro que concordou em não chamar a polícia, pois havia pintado o escritório do qual eu era sócia. O carro tinha seguro. Segui para a hidro, voltei e contei o ocorrido para minha mãe que me perguntou, assustadíssima, se o acidente havia ocorrido recém, no caminho de volta, respondi que não, mas fui para o clube me exercitar, pois eu havia saído de casa (e atropelado o cidadão) para isso. Na minha mente não havia razão alguma para voltar para casa sem me exercitar.
Outro episódio áureo do meu pragmatismo foi a retirada dos sisos. Eram minhas férias de 2015, eu morava no Mato Grosso, piscina em casa, uma vida muito confortável. Fui consultar, o dentista sugeriu tirarmos dois por vez. Eu disse que queria tirar os quatro, assim não precisaria de antibiótico pelo dobro de tempo e, já que era necessária a retirada, que fosse numa única vez. E assim foi, em menos de 10 dias eu estava tomando drinks na piscina de casa e aproveitando o dolce far niente.
A minha vida de cortesã se originou do meu pragmatismo! Eu estava esgotada de me relacionar amorosamente com homens, estava exausta de trabalhar mais de 8 horas por dia e, ainda, sofrer assédio de homens casados e ególatras. Fui demitida sem justa causa e tive a brilhante ideia: unir o agradável ao útil, monetizando meu tempo com valores acima da média e selecionando com régua curta os afortunados que teriam a minha companhia. Optei, portanto, por ter a cereja do bolo de todos os meus relacionamentos, aquilo que mais me divertia com os homens previsíveis com os quais namorei. Sexo casual nunca foi, não é e nem será a minha praia, mas, durante um tempo foi o que fiz, faturando e descansando um pouco a minha pele de advogada, professora universitária e proletária que não é herdeira, pois o pai primou pela honestidade a vida inteira.
Eu gosto do que é fácil e descomplicado, gosto do que é claro, doce, aprazível. Não consigo sequer conviver com gente autoindulgente e complicada, pessoas que complicam o simples ao invés de descomplicarem o complicado. A vida pode não ser uma cereja madura, mas com bom humor, uma dose de loucura e destemor, ela pode ser muito divertida. Ah, o pragmatismo também adoça o nosso mundo particular. Use-o sem moderação!
1 – Cronista, advogada e doutoranda em Teoria da Literatura no Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS.