- Cassiano Cardoso (jornalista)
Tradicional cortejo do carnaval de Porto Alegre, o bloquinho desfilou na Rua Nestor Ludwig, inundada pela enchente de 2024
O sol mal havia aparecido no horizonte da Capital do último domingo (26) e as cores amarelo, azul e vermelho já passavam a tomar conta dos espaços da cidade. Nos arredores do Beira-Rio, onde há oito meses aquele pedaço de Porto Alegre – como em tantos outros do Rio Grande do Sul – resistia em meio às águas que adentraram nosso Estado, naquela manhã, também era de resistência.
O Bloco da Laje escolheu a Rua Nestor Ludwig, exatamente entre o Parque Marinha do Brasil e o Gigantinho, como espaço para seu tradicional cortejo, que há doze anos desfila na capital dos gaúchos. Seja com o cooler cheio de cerveja ou então com as mais diversas fantasias coloridas, o bloco – que reúne majoritariamente a comunidade LGBTQIA+ – deu o start às atividades carnavalescas em Porto Alegre.
Entre casais, filhos pequenos, solteiros e, principalmente, apaixonados pela cultura, o Bloco da Laje mais uma vez foi um sucesso na Capital com cerca de 20 mil participantes, segundo a organização. Por volta das 8h da manhã, já com a rua tomada pelos foliões, foi dada a largada para uma festa que foi até o final da tarde. E, como sempre, buscou trazer reflexões que desafiam o senso comum e instigam o público geral a pensar sobre determinadas visões impostas por quem sempre esteve no topo da pirâmide da sociedade.
Seja pelo icônico, mas também absolutamente controverso “Jesus gay” – que, na verdade, na história contada pelo Bloco da Laje, fala sobre um povo que quer tirá-lo da cruz – ou então do “Recanto Africano”, como um espaço de resistência trazido nas manhãs de domingo na Redenção, onde se encontram os foliões para os ensaios do bloco; a cada verso, uma nova reflexão em meio à folia e festejo entre os participantes.
Até mesmo clássicos nacionais, como “Deusa do Amor”, do Olodum, e “Acenda o Farol”, de Tim Maia, fizeram parte do repertório amarelo, azul e vermelho, que se seguiu entre a Avenida Padre Cacique e a Avenida Edvaldo Pereira Paiva – a Beira-Rio -, durante a manhã daquele domingo. Uma manhã de sol, de festa, de afeto, de lúdico, de alegria, mas, acima de tudo, de resistência. De um povo que sobreviveu, mas que também se voluntariou quando o Rio Grande do Sul mais precisou.
“Após a chuva, o Bloco da Laje renasce com força total, trazendo mais um carnaval independente, numa campanha de financiamento coletivo conquistada por seu público fiel em apenas 40 dias, bancando a estrutura para colocar o bloco na rua mais uma vez e celebrando suas canções autorais com clássicos e novidades, para levar a alegria do verão ao longo do ano inteiro” afirma Ricardo Pavão, diretor musical do grupo ao jornal Correio do Povo.
O Bloco da Laje surgiu como uma brincadeira irreverente, de uma forma de se expressar, de dialogar e tratar de temas importantes da sociedade de maneira leve, mas potente. Dizem que é “na luta que a gente se encontra”, mas também é na divertida e calorosa manhã do bloco mais querido de Porto Alegre que o povo se reencontra.
- Cassiano Cardoso (jornalista)