A vez do pensamento crítico

Há escolhas que expõem o que uma cidade valoriza. A definição do patrono da Feira do Livro de Porto Alegre é uma delas. Não se trata apenas de homenagear um nome, mas de afirmar um padrão de pensamento e de produção cultural. Por isso, a indicação de Juremir Machado da Silva faz muito sentido.

A trajetória dele não cabe em um único rótulo. Juremir é autor de livros que enfrentam temas densos, professor com produção acadêmica consistente e jornalista com presença contínua no debate público. Essa combinação não é comum. Ele escreve com base, pesquisa, leitura e repertório, e leva isso também para o espaço da imprensa.

A própria história recente da Feira mostra um caminho claro. Fabrício Carpinejar, escolhido patrono da 67ª edição, tem uma obra que conversa diretamente com o cotidiano da cidade, com suas emoções e relações. Martha Medeiros, na última feira, também representa esse vínculo forte com o leitor local, com uma escrita que alcança o público e traduz sentimentos comuns. São escolhas que dialogam com Porto Alegre.

Juremir entra nesse mesmo campo, mas por outra via. O diálogo que ele estabelece com a cidade é mais crítico, mais analítico, menos afetivo e mais reflexivo. Ele não escreve para confortar, escreve para provocar. E isso também é necessário. Uma cidade que se pretende plural precisa reconhecer diferentes formas de produção intelectual.

Há um traço importante na sua obra: independência. Ele não escreve para agradar grupos, nem para reforçar consensos fáceis. Assume posições, sustenta argumentos e aceita o confronto. É exatamente esse tipo de postura que precisa ser valorizado em um evento que celebra o livro como instrumento de reflexão.

Porto Alegre ganha quando reconhece quem contribui para o pensamento crítico. Indicar Juremir Machado da Silva como patrono é reconhecer uma obra construída com consistência e presença pública.