O SBT decidiu cancelar a exibição do especial de Natal, “Natal é Amor”, protagonizado por Zezé Di Camargo e previsto para ir ao ar no dia 17 de dezembro, às 23h. A emissora informou que a decisão foi tomada após avaliações internas, dias depois de declarações públicas do cantor criticando a presença de autoridades políticas em um evento institucional do canal.
As falas de Zezé ocorreram durante o lançamento do SBT News, quando o artista demonstrou incômodo com a participação de representantes de diferentes espectros políticos, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sem citar nomes diretamente, o cantor afirmou que não concordava com o ambiente do evento e chegou a usar termos de forte carga moral ao se referir à situação.
Inicialmente, a direção do SBT cogitou manter o especial na grade, apesar da repercussão negativa. No entanto, a emissora voltou atrás e optou pelo cancelamento. Em nota oficial, o canal afirmou apenas que o programa não será exibido e que em breve anunciará qual atração ocupará o horário.
O SBT não respondeu diretamente às críticas do cantor. Segundo a assessoria, o posicionamento da emissora está expresso na carta aberta divulgada por Daniela Beyruti, presidente do SBT e filha de Silvio Santos. No texto, ela reforça que o evento teve como objetivo representar pluralidade, diálogo institucional e respeito às diferentes esferas do poder público.
Após a decisão, Zezé Di Camargo divulgou uma manifestação pedindo que o especial não fosse exibido, alegando desconforto com o contexto e reafirmando seu carinho pela emissora, embora discordasse da condução do evento.
O episódio reacende um debate recorrente no meio artístico brasileiro. Ao longo da carreira, Zezé Di Camargo, assim como diversos outros artistas de grande visibilidade, realizou apresentações contratadas por prefeituras, governos estaduais e eventos financiados com recursos públicos, além de ter se beneficiado de políticas de incentivo cultural em diferentes momentos.
A contradição entre o discurso político adotado por parte desses artistas e a relação histórica com recursos públicos volta ao centro da discussão. Criticar a política institucional, ao mesmo tempo em que se usufrui de estruturas sustentadas pelo próprio Estado, tem gerado questionamentos sobre coerência e responsabilidade pública.
Do ponto de vista empresarial, o movimento do SBT é interpretado como uma decisão de gestão. Trata-se de uma emissora privada, em processo de reposicionamento editorial, que optou por não manter em sua programação um produto associado a um artista que criticou publicamente sua linha institucional.
Mais do que um embate isolado, o cancelamento do especial expõe uma tensão crescente entre interesses comerciais e o uso seletivo do discurso moral na cultura popular brasileira. Desta vez, a controvérsia não ficou apenas no campo das declarações. Houve consequência prática, e ela partiu da própria emissora.
Prefeitura de São José do Egito cancela show de Zezé Di Camargo após polêmica política
A Prefeitura de São José do Egito, no Sertão de Pernambuco, decidiu cancelar o show de Zezé Di Camargo que estava previsto para a Festa de Reis 2026. A apresentação ocorreria no dia 4 de janeiro e teria cachê de R$ 500 mil, pago com recursos públicos que incluem verbas federais.
A decisão foi anunciada pelo prefeito Fredson Brito, após a repercussão negativa das declarações feitas pelo cantor contra o SBT. Zezé afirmou que a emissora teria “se prostituído” ao receber o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no evento de lançamento do novo telejornal da casa.
Em nota oficial, o prefeito afirmou que a medida teve como objetivo evitar que o município fosse arrastado para disputas políticas ou simbólicas que não representam a cidade.
“Não aceito, em hipótese alguma, que São José do Egito seja colocada no centro de polêmicas decorrentes de questões individuais de quem quer que seja”, declarou Brito. Segundo ele, a cidade não pode servir de palco para “especulações, rotulações ou narrativas” que desviem o foco do evento e da comunidade local.
O contrato com Zezé Di Camargo foi encerrado administrativamente. Para o lugar do cantor, a prefeitura anunciou a contratação da banda Seu Desejo (Yara Tchê & Alessandro), que manterá a data original da festa.
Nando Gross – Opinião

A decisão do SBT não é censura, nem perseguição ideológica. É consequência. E é também um retrato claro da contradição de parte do meio artístico brasileiro.
Zezé criticou a presença de autoridades políticas em um evento institucional do SBT, incluindo o presidente da República, e usou termos moralizantes, como se estivesse apontando uma suposta degradação ética do ambiente. Ao mesmo tempo, é um artista que, ao longo da carreira, já se beneficiou direta ou indiretamente de políticas públicas de cultura, incentivos fiscais, contratações via prefeituras, governos estaduais e eventos bancados com dinheiro público.
Quando o discurso político coincide com interesses pessoais, tudo vira “liberdade de expressão”. Quando o ambiente deixa de agradar, vira “prostituição”, palavra escolhida por ele, não por acaso, dirigida a duas mulheres e carregada de julgamento moral e desprezo.
O SBT, goste-se ou não da emissora, agiu de forma pragmática. Uma empresa privada não tem obrigação de sustentar no ar um produto protagonizado por alguém que ataca publicamente sua linha institucional, ainda mais num momento de reposicionamento editorial. Não há incoerência nisso. Há gestão.
O problema maior está fora do SBT. Está na hipocrisia recorrente de artistas que usam o palco para atacar a política, mas não recusam verbas públicas, leis de incentivo, cachês pagos por prefeituras ou estatais. Criticam o Estado, mas nunca devolvem o dinheiro. Criticam governos, mas não abrem mão do sistema que os sustenta.
Zezé não é um caso isolado. É só mais um nome conhecido que vocaliza um discurso conservador, moralista e seletivo, enquanto sua trajetória econômica conta outra história. A diferença é que, desta vez, houve consequência concreta.
Talvez o desconforto maior não seja o cancelamento do especial, mas o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, alguém disse “não” a esse tipo de jogo duplo.
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