Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Por Nando Gross
Em parte do Rio de Janeiro, pesquisas recentes indicam que uma parcela da população aprova as ações policiais que resultaram em mais de cem mortes em comunidades. Esse dado, repetido em manchetes e discursos oficiais, vem sendo usado como justificativa para operações que ultrapassam os limites da racionalidade e da proporcionalidade no uso da força. Mas desde quando se faz política de segurança pública com base em pesquisas de opinião?
A política criminal não pode ser moldada por impulsos de medo ou sede de vingança. A função do Estado é garantir o monopólio da força dentro da legalidade e com respeito aos direitos fundamentais, e não transformar o clamor popular por punição em estratégia de governo. Quando se aceita a ideia de que matar criminosos é sinal de eficiência, o Estado abdica da razão e passa a competir com o crime em brutalidade.
O Rio de Janeiro é hoje a cidade que mais mata suspeitos e criminosos no mundo. Mesmo assim, o crime organizado segue forte, controlando territórios e impondo regras próprias. Não há prova de que o número de mortos em operações policiais reduza a violência ou desmonte facções. O que se observa é um ciclo de barbárie em que o Estado também atua como parte do problema.
Essa política de extermínio interessa a quem? A políticos que exploram o medo para colher votos, a corporações que resistem a qualquer forma de controle e a setores da mídia que lucram com o espetáculo da violência. O que o Rio precisa é de uma política de segurança racional, baseada em inteligência, prevenção, educação e investigação, não em execuções.
Enquanto a eficácia for medida por corpos no chão, o resultado será o mesmo: tragédias em série e uma sociedade anestesiada diante da própria ruína. Segurança pública não se constrói com aplausos, mas com justiça, estratégia e respeito à vida.