Cláudia de Marchi
A era da morte da delicadeza, da curiosidade, da elegância e da inteligência é, também, o ápice de um mundo repleto de pessoas desequilibradas agindo de forma descompensada e irresponsável consigo mesmas e, o que é pior, com as outras. Exemplo do último caso foi a necessidade de se cunhar o tempo love bombing para explicar o excesso de amorosidade que antecede atos relapsos e é retomado diante da ameaça do fim.
Desequilíbrio, eis a questão! Desequilíbrio na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Desequilíbrio por todos os lados. As pessoas de cuja personalidade a doçura e a delicadeza se evadiram, a título exemplificativo, defendem o seu direito de praticar a franqueza e a sinceridade escondendo, nesta defesa, o seu egocentrismo, o seu egoísmo, a sua péssima educação e crueldade.
Ora, quando uma pessoa é sincera ela o é a respeito, precipuamente, do quê? Do seu ponto de vista, das suas ideias, das suas opiniões. Ideias permeadas pelo quê? Um pouco do que conhecem, muito do desconhecido cuja admissão negam. Algumas criaturas são grosseiras na defesa de suas opiniões e não praticam nenhuma empatia. Repetem seus pensamentos olvidando por completo do mal-estar alheio, quiçá até desejando desconcertar o outro, pois nada explica certos atos baixos, vis e ególatras.
Até nas virtudes, há de haver equilíbrio, prezada leitora, prezado leitor! A generosidade é um exemplo: praticada em excesso ela se transforma em autossabotagem, em autonegligência. O indivíduo abdica-se de si para fazer o bem ao outro, há a negligência dos seus desejos, sentimentos e anseios para alegrar a outra pessoa se tornando, assim, seu escravo.
Em raras pessoas, essa dedicação em satisfazer as vontades alheias conversa com um anseio presente em pessoas narcisistas: o de ser bem-quisto, admirado, amado e valorizado. Nestes seres, o empenho em deixar quem lhe cerca feliz enquanto negligenciam a si mesmas, é um escopo, pois eles precisam da boa opinião alheia a seu respeito para sentirem-se bem na própria pele. Tais criaturas são exceção, não regra no mundo dos humanos demasiadamente generosos.
O tal “ser trabalhador”, que era para ser e continuar sendo algo virtuoso, se tornou, no mundo dos desequilíbrios, um sintoma quando o trabalho é praticado em excesso. Neste caso, muitas pessoas sabotam a educação dos filhos, a necessidade de cultivar laços de amizade e de construir relações amorosas saudáveis. Os workaholics são seres desequilibrados, afinal, uma vida plena não se faz apenas com realizações profissionais e saldo bancário elevado.
Muito trabalho, zero investimento em relacionamentos saudáveis e plenamente satisfatórios. Muitas ocupações, não raras vezes, escondem imensa necessidade de fuga. O hábito é o contentar-se e manter o status quo, pois mudar e ser feliz – como já escrevi anteriormente, parafraseando a opinião de um ex-namorado, suicida em potencial, sobre fazer terapia psicanalítica – “dá muito trabalho”. Ele era workaholic, inclusive.
Vivemos num mundo cansativo, mas, o que é pior, coexistimos num universo de pessoas cansadas e emocionalmente atrofiadas. O cansaço em si não é um defeito, somos humanos explorados pelo capitalismo, agora, o atrofiamento emocional, psíquico e moral, como no caso das criaturas intelectualmente embotadas e daquelas indelicadas e grosseiras, é algo superável desde que exista vontade e, claro, coragem de mudar e evoluir.
De um lado estão os usuários de drogas lícitas e ilícitas, de outro os que fazem da atividade física uma bandeira defendida insanamente: há, nas academias de musculação, uma gama de mulheres e homens se lesionando em prol de um corpo de elegância questionável sendo que sequer são esportistas profissionais.
Eu imagino essas pessoas, no futuro, explicando para amigos, filhos ou netos que lesionaram o joelho, o ombro ou a lombar malhando sem receber um real. Simplesmente, pagam para se excederem e colocarem a saúde física em risco, enquanto, claro, bradam aos quatro ventos que malham em prol dela sem perceber que são e estão em estado de desequilíbrio. E nem vou falar dos usuários de drogas para hipertrofia e emagrecimento.
Há também a trupe dos abstêmios! “Eu não bebo, eu sou saudável”. E comem doses cavalares de açúcar diariamente. Alguns não fazem uma caminhada, não malham, não mexem o corpo, mas estão sempre “on” para excessos gastronômicos. Outra espécie de fuga, outra manifestação de desequilíbrio. No universo acadêmico no qual eu transito percebo muitos e muitas colegas imbuídos, aparentemente, da certeza de que são inteligentes e, portanto, não precisam ter um corpo em forma. Normalmente essas pessoas aderem ao tal do “meu corpo, minhas regras”, pois cuidar do corpo também dá trabalho.
Seja dos apologistas de vida saudável, seja dos dispersos com a própria saúde, o que vejo são criaturas desconectadas de si e desequilibradas, algumas mais do que outras e umas sempre aptas a criticar as outras. Falta bom senso no mundo atual, falta reflexão e doçura, mas também falta terapia e exercício de humildade por parte da maioria das pessoas.