Cláudia de Marchi
Pois é, cara leitora, caro leitor, às vezes ela acontece. Diferentemente do desejo, ainda que desconhecido pelo paciente, pelo retorno a algo, típico dos melancólicos, ou da apatia depressiva, ela não é um transtorno de humor, mas tem causa pontual, conhecida e reconhecida por quem a sente. Elementar que a pessoa triste possa apresentar sintomas melancólicos ou depressivos, mas a causa, é definida. Ou o conjunto de causas nas piores das hipóteses. A este amealhado infeliz chamo de enfado existencial.
Falo aqui deste cansaço pesaroso, pois, eventualmente e por razões muito específicas, ele me pega. Sou uma pessoa equilibrada no humor, sempre muito alegre, mas a vida às vezes dói e fugir da dor tem efeitos demasiadamente nocivos. Tenho uma energia de viver única, mas a tenho, apesar da vida. Amo a vida, apesar do que ela fez e faz comigo.
A minha felicidade, portanto, é derivada das virtudes que possuo e admiro em mim. Da forma através da qual eu sou livre e, solitária em minhas batalhas, consigo o que desejo quando isso depende unicamente do meu esmero. Todavia, a nossa passagem neste pálido ponto azul se constitui mais de fatos e circunstâncias cuja ocorrência se dá ao alvedrio de nosso arbítrio.

Não gosto da forma com a qual a vida me apresentou muitas coisas, amizades, colegas e, especialmente, ao amor. Junto com minha tristeza um sentimento horrendo de autocomiseração me tortura. E eu fico ainda mais torturada quanto mais vítima das injustiças da vida eu me sinto, pois tenho vergonha de sentir autopiedade, mas às vezes ela é inescapável. E, nestes momentos, eu me detesto por estar detestando os acasos infelizes da minha existência.
Em relações familiares, mormente com o meu pai, não tive sorte, sequer respeito. Meu pai não esteve ciente de que existe ex-esposa, não ex-filha. E, assim, foi adiante magoando a, na época, única filha que desde muito cedo fez de tudo para ajudá-lo. Rememorar este fato me entristece, todavia, na maioria dos dias eu me sinto confortável com ele, pois acostumada.
O capitalismo é outro fator de entristecimento para mim e para a quase totalidade das pessoas que não nasceram herdeiras. Até criaturas em altos cargos o sentem, pois eles vêm careados de muita responsabilidade e, não raras vezes, da possível instabilidade quando a pessoa não é concursada, por exemplo. E, friso: nem todas as pessoas foram ou são obrigadas a almejar cargos públicos, de mais a mais, a sensação de insuficiência e frustração não são desprivilegio dos assalariados do setor privado. A pressão por produtividade vem adoecendo as pessoas. A insegurança quanto ao futuro num mundo em crise e cada vez mais autodestrutivo também destrói e adoece.
Outras injustiças, além das inúmeras sofridas em meu passado, às vezes me ferem muito. Então eu vivencio um ou, no máximo, dois dias de intenso sofrimento nos quais eu não consigo comer, não sinto vontade de fazer nada, mas quase sempre eu faço, apesar do enfado. Ocorreu isso após eu findar a versão da minha tese para qualificação. Outra batalha enfrentada solitariamente.
Viver é algo solitário. Podemos colorir a nossa vida nos cercando de quem admiramos, desejamos e amamos, mas no fundo somos nós com nossas angústias, com as nossas confusões. Nós tentando fazer o melhor que podemos diante do legado pela vida. Nós e as nossas opções, nós com o desejo de mudança hábil a nos fazer escapar do desconforto e, alguns mais do que outros, com o medo do novo.

Aliás, a tristeza tem uma função importantíssima em nossa jornada de autodescoberta – que inicia quando nascemos e só finda quando morremos – ela nos mostra o que é doloroso e, descobrindo o porquê algo nos fere, nos conhecemos mais. Assim, podemos buscar uma vida mais plena, mais feliz e menos triste. A angústia, segundo Lacan ao se aprofundar na teoria freudiana, é o afeto que nunca mente. Eis um fato irrefutável.
A vida dói, mas também enternece e regozija, importa, portanto, que não abramos a porta e nem ofereçamos uma confortável poltrona para a tristeza nos fazer companhia. Ela é visita pouco aprazível e deve ser colocada em seu lugar: é preciso usufruir um pouco de sua companhia para não nos apegarmos a algum mecanismo de fuga e, após, expulsá-la, sob pena de, estando confortável, ela nos adoecer e nos tornar depressivos ou cronicamente melancólicos.
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