Cláudia de Marchi
Entre tantas virtudes magnânimas para o bom convívio humano e uma vida mais graciosa, a delicadeza é uma das que estão desaparecendo no mundo. Não é fenômeno recente, durante quase toda a minha vida reparo na carência de doçura das pessoas, provavelmente por eu ser bastante terna e sensível.
Sintoma da morte da delicadeza é a inabilidade das pessoas para elogiarem umas as outras. E nem falo de elogio falso, embora eu o ache educado e até necessário em muitos momentos, mas me refiro ao enaltecimento honesto, baseado em virtude transparente.
Eu valorizo elogios e os distribuo, comumente, com muita franqueza. Sou o tipo que elogia a colega de beleza acima da média, o tipo de pessoa amável que deseja espalhar amor ao seu redor, pois sei que todas as pessoas possuem as suas mazelas e dores: às vezes um sorriso e um elogio pode mudar o dia de alguém. Enfim, não sou nada econômica com a doçura.
Entretanto, docílima que sou, percebo as pessoas cada vez mais amargas e sisudas. No mercado, diante de mera esbarrada lançam olhares de ódio. Há gente sem educação, sem elegância e sem delicadeza alguma. Infelizmente, essas pessoas são a maioria e isso é um horror.
Recentemente, vi um vídeo no Instagram da personagem Odete Roitman, maravilhosamente interpretada pela mui bela Débora Bloch, dizendo que ela não deseja salvar a humanidade, pois não a suporta em virtude de ser constituída por “um bando de idiotas sem a mínima elegância”. Eu não consigo discordar.
O mundo se tornou um antro de gente idiota e desequilibrada cultuando o dinheiro, inventando necessidades para gastar o pouco que ganha enquanto toma antidepressivo e ansiolítico acompanhados de excessos diversos. A morte da delicadeza é inversamente proporcional ao aumento de gente parva em plena era do acesso à informação.
A elegância? Falecida. Em alguns casos, soterrada sob os escombros do bom senso. Desfilam por aí alongamentos de cílios tenebrosos hábeis a fazer a pessoa alçar voo se piscar rapidamente. Unhas gigantes, muito enfeitadas e coloridas. Sobrancelhas falsas. Corpos assimétricos com excesso de músculos. Exibição de atributos físicos de boniteza altamente questionável. Desfila por aí gente que não lê e não questiona a realidade. Gente oca, gente chata. Gente que não sabe imprimir cordialidade ao convívio. Gente grosseira e sem educação. Gente de testa oleosa se sentindo detentora de uma mente brilhante.
Eu frequento academia de musculação em nome da minha saúde mental e, em segundo lugar, pelo bem da minha saúde física na velhice, a aparência estética nunca foi o meu foco, pois sempre gostei do meu corpo menos volumoso e mais magro, todavia, no mal necessário que é sair do meu amado lar para tal lugar, o pior é me defrontar com toda sorte de deselegância.
Hoje pela manhã me irritei com um “personal” que estava auxiliando uma mulher e bocejava sem tapar a boca fazendo aquele barulho irritante típico de bocejos. O que só é aceitável na cama pela manhã, nunca em público. Além disso, o cidadão trajava uma calça de abrigo do início dos anos 90, surrada, cheia de bolinhas e uma blusa de lã no mesmo estado e incondizente com a temperatura dentro do local. Carência financeira não é defeito, estar com o humor deprimido, também não, mas não ter educação e sair de casa desasseado é ridículo.
Tem pessoas que são o auge da falta de finesse: um misto de crise estética com crise de bons modos. Chamo isso de “combo da desgraça”, pois além disso tudo são desprovidas de beleza e de carisma. Aliás, o magnetismo das pessoas também ruiu: a maioria é sem brilho, sem graciosidade, tediosa, previsível e bastante chata.
A musa de 2025, Fernanda Torres, encanta a todos com sua presença de espírito e humor, pessoas como ela são, literalmente, excepcionais. Ela deve ser considerada um exemplo a ser seguido, especialmente por essas pessoas de cara amarrada e humor duvidoso que, aparentemente, acham bonito serem insossas e descontentes com tudo. Ser schopenhaueriano é brega, especialmente quando o indivíduo sequer leu Schopenhauer.
Isso sem falar do povo crente desejando impor suas crenças aos outros. Isso sem falar dos vira-latas que defendem um ex-presidente altamente criminoso e o prejuízo econômico do país com taxação espúria. Isso sem falar das injustiças de toda ordem, da fome, da guerra, da ascensão do fascismo e de quem não tem empatia. Isso sem falar dos travessões que viraram “marca da besta” na escrita de robôs. Isso sem falar de muita coisa, mas não nego que a derrocada da humanidade tem péssima estética. É péssima de presenciar e de enxergar, pois deselegante, indelicada e amarga.