Cláudia de Marchi
Considero o retrato da hipocrisia humana a modéstia, a obediência e a resignação serem consideradas virtudes. Quanto a última, não nego, é necessária, a vida nos obriga pena de ensandecermos ou terminarmos encarcerados num presídio, entretanto, pratico o estoicismo sem me afastar de certa revolta íntima: sou uma irresignada aceitando o que não pode mudar, apenas e tão somente, porque não há outra opção.
Existem, no entanto, pessoas irreflexivas, que tudo aceitam sem questionar, essas são as resignadas as quais me refiro. Elas costumam ser boas ovelhas também, pois são obedientes. Vítimas ideais de pastores, de coaches estelionatários, enfim, vítimas em potencial de toda espécie de ludibrio. O preço por não pensar por si mesmo é ser escravo da manipulação alheia.
Stanley Milgram realizou as denominadas investigações sobre a obediência cega à autoridade com o fito de compreender e explicar a prontidão com a qual os nazistas assassinaram os judeus durante o Holocausto. O professor anunciou que precisava de pessoas para um estudo sobre a memória humana, pagando-lhes 4 dólares por aproximadamente uma hora. Philip Zimbardo, em sua obra O efeito Lúcifer: como pessoas boas tornam-se más (2022), insere seus leitores na possibilidade de eles serem um dos candidatos a participar do experimento realizado em Yale, por Milgram:
Um pesquisador cujo porte sério e avental cinza confere-lhe importância científica saúda você e outro participante em sua chegada ao laboratório da Universidade de Yale, em Linsly-Chittenden Hall. Você está aqui para ajudar a Psicologia Científica a encontrar maneiras de melhorar o aprendizado e a memória das pessoas mediante o uso de punição. Ele lhe diz por que essa nova pesquisa poderá ter consequências práticas importantes. A tarefa é direta: um de vocês será o “professor”, que dará ao “aluno” uma série de pares de palavras para memorizar. Durante o teste, o professor dá uma palavra-chave, e o aluno precisa responder com a associação correta. Quando acertar, o professor lhe dá uma recompensa verbal, tal como “Bom”, ou “É isso mesmo”. Quando errar, o professor deverá pressionar uma alavanca em um aparelho de choque de aparência impressionante, que envia um choque imediato como punição pelo erro.
Contando com trinta interruptores, o choque inicial seria de 15 volts e aumentaria em 15 volts a cada nível. Os “professores” eram instruídos pelo experimentador a aumentar a voltagem a cada erro do “aluno”:
[…] O décimo nível (150 volts) diz “Choque Forte”; o décimo terceiro nível (195 volts) é um “Choque Muito Forte”; o 17º nível (255 volts) é um “Choque Intenso”; o 21º nível (375 volts) é um “Choque Extremamente Intenso”; o 25º nível (375 volts) diz “Perigo, Choque Severo”; e nos 29º e 30º níveis (435 e 450 volts), o painel de controle é marcado simplesmente com um sinistro XXX (o símbolo da dor e poder extremos).
Apesar de a maioria reclamar de tempos em tempos alegando que não queria mais continuar, os “professores” eram dissuadidos pelo experimentador ao apresentar-lhes razões para manterem-se no experimento. Eles se mantinham sem questionar a autoridade, gerando os seguintes resultados:
Na verdade, no experimento de Milgram, dois em cada três (65%) voluntários foram até o fim, com um choque de nível máximo de 450 volts. A grande maioria das pessoas, os “professores”, eletrocutaram seus “alunos-vítimas” várias e várias vezes, a despeito dos apelos cada vez mais desesperados para que parassem.
Rutger Bregman, no livro Humanidade: uma história otimista do homem (2021), realiza um estudo para questionar tal experimento sem negar a sua inquietação com os resultados obtidos por Milgram, pois muitas pessoas, acreditando que os choques impingidos eram reais, não hesitaram em aplicá-los.
Em minhas acepções pessoais acerca do que se convencionou chamar de normal e virtuoso tenho a obediência como um defeito. E mais, ela é indício de burrice e covardia. Burrice, pois para contrariar o absurdo é preciso pensar e argumentar, covardia, porque obedecer é sempre mais fácil. Abdicar da reflexão, sendo uma pessoa dotada de cérebro racional, é uma espécie de maldade: a mediocridade é a opção dos covardes, pois ousadia requer empenho.
Consequentemente, não acho que pessoas boas possam agir de forma pérfida como insinua o título e a obra de Zimbardo: tanto os soldados nazistas quanto as pessoas do experimento realizado em Yale são más, pois covardes e burras, são más, por serem obedientes, em síntese.
Valorizar a obediência é retrato da forma com a qual fomos educados. Crianças obedientes são fáceis de criar e educar, mas aí está a questão estoica sobre o qual abordei a resignação: crianças inteligentes obedecem aos pais mesmo sem querer para não sofrerem punições, porém isso não significa concordância, mas uma artimanha astuta com vistas a evitar reprimendas e sermões tediosos, quiçá para ganhar mimos e toda sorte de agrados.
Essa artimanha infantil, na vida adulta, se torna o tal estoicismo que o mundo capitalista nos obriga a praticar. Ora, para sermos alegres e felizes precisamos ser contentes com quem somos e com o que temos, entretanto, esse contentamento não pode ser delirante a ponto de nos fazer acomodar sem desejo por evolução, da mesma forma, ele não pode ser excessivo a ponto de nos fazer abdicar da irresignação revoltosa contra as injustiças que vemos e experenciamos.
Sem revolta o mundo não muda. Sem ódio e intolerância ao que é abominável, odioso e intolerável, o fascismo teria capturado a todos em qualquer canto do mundo. Sem a revolta das mulheres contra o machismo viveríamos num mundo pior. Serve para a comunidade LGBTQIAPN+, serve para as pessoas indígenas e negras. Aceitar o que não podemos mudar, sim, mas nos rebelar sempre que possível para sermos agentes da mudança, eis a boa ideia!
Atinente a obediência maléfica foi uma experiência que tive essa semana na academia de musculação na qual, a contragosto, militei contra o capitalismo e só após, contando a história para minha mãe, percebi que também fiz um “chá revelação” de classe social para um instrutor desavisado. Dias antes eu fui malhar com moletom e precisei tirar. Deixei num canto, esqueci e o cidadão veio me dizer para eu deixar mais perto de mim, pois veem nas câmeras e chamam a atenção dele. Nunca ouvi falar disso, achei de péssimo tom, mas sai em busca da peça de roupa esquecida.
Nesta terça-feira eu estava no intervalo de um exercício e o sujeito chegou dizendo para eu levar a toalhinha, ao que interrompi me recusando a fazê-lo, pois eu não suo nem no verão e limpo os aparelhos antes e após usar. Disse-lhe que, em um ano e meio, o único instrutor, além dele, que me pediu isso foi demitido. Afirmei que eles, os instrutores sem diploma, ganham muito mal para agirem de forma inconveniente com os alunos sendo que, para os chefes, eles pouco valem. Ao fim, contei que as duas vezes que levei toalha, extraviei e não recuperei.
O rapaz riu e eu não me delonguei, mas poderia dizer para ele ir perturbar os 99% dos homens e 70% das mulheres que não levam toalha e estavam ali, no meu alcance visual, suando como se estivessem correndo num sol escaldante. As criaturas distraídas costumam me menosprezar, porque eu sou educada, sorrio e cumprimento as pessoas, malho diariamente e tenho uma derrière avantajada. Elas deduzem que eu sou burra e lenta de raciocínio. Preconceito típico de gente imbecil.
Acerca da modéstia ser a virtude mais hipócrita inventada, valho-me da sentença autoexplicativa de Shopenhauer: “Com habilidades moderadas, a modéstia é mera honestidade. Com um grande talento, no entanto, ela não passa de falsidade.” Em suma, ou a pessoa está sendo sincera ou hipócrita, num ou noutro caso não é o agir chamado de modesto algo virtuoso.
Obviamente, em uma sociedade que reverbera conceitos e crenças irrefletidamente, quem questiona essas pretensas virtudes é exceção. Felizmente eu sou mais excepcional e especial do que comum e ordinária. Modesta eu nunca fui: dos meus talentos eu me orgulho, das minhas virtudes me desculpo, mas não paro de tentar evoluir. Todos os dias, até o certo, porém indesejado, fim.
Referências:
BERGMAN, Rutger. Humanidade: uma história otimista do homem. Tradução de Claudio Carina. São Paulo: Planeta, 2021.
ZIMBARDO, Philip. O efeito Lúcifer: como pessoas boas tornam-se más. Tradução de Tiago Novaes Lima. 11. ed. Rio de Janeiro: Record, 2022.