Cláudia de Marchi
Hoje eu poderia escrever uma crônica sobre o Dia dos Namorados, afinal, apesar de eu achar uma data comercial e que todos os dias são dias de celebração amorosa, muitas pessoas a valorizam. Quando eu namoro, noivo ou caso, também valorizo, neste momento, solteira e na minha melhor fase desde o final de 2022, sinto alívio e paz. Portanto, a minha ode ao amor calcado na admiração, na cumplicidade e na amizade adocicadas com desejo erótico, será postergada para outro momento. De toda sorte, namoro vem do latim vulgar innamorare que significa apaixonar-se, talvez nestes casos, nos excepcionais, o tema dessa crônica seja menos asqueroso.
Eu já escrevi diversas vezes que escrevo para me salvar. Em muitas circunstâncias essa salvação advém do protesto contra injustiças e toda sorte de lastimas cuja ocorrência eu não posso impedir. Dessa forma, através da minha escrita cortante, saio do modo estoica no qual estou, pois a vida me obriga, para aquele que me apetece, o modo epicurista de ser! Antes de me salvar, a escrita me liberta.
Sinto prazer, portanto, em incomodar gente cuja consciência queima ao me ler, afinal, se não posso impedi-las de ser quem são e fazer o que fazem, ao menos as irrito. Para mim isso é imensamente honroso: não dou a mínima importância em ser odiada e difamada por gente má e infeliz, por gente egoísta, narcisista e ególatra.
Ser desprezada por criaturas pérfidas impedidas, pela vergonha de si mesmas e consciência de seus próprios erros, de reclamar sobre o que escrevo é um dos meus maiores prazeres. Elas ficam lá, quietas e imersas em ansiedade, praticando excessos alimentares ou alcoólicos para aplacar a raiva que não podem manifestar. Eu sigo leve, alegre e linda, elas engordam.
Quando eu era criança e fazia alguma peraltice a minha mãe dizia: “Olha, olha, Cláudia de Marchi, tem medo e não tem vergonha!”. Ela sempre me chamava pelo nome completo quando brava. Cresci e aprendi que boa parte das pessoas tem vergonha de ser descoberta, não de fazer o que faz. Incluo aí as prostitutas que se socorrem no anonimato, o marido que trai a esposa costumeiramente, mas treme de medo de ser descoberto, os políticos corruptos e toda sorte de criatura que obtêm vantagem indevida ou ilícita. Todo ser humano enganador tem medo de ser descoberto, mas não tem decência para agir corretamente.
Essa incapacidade de agir de forma honesta se baseia numa autoconfiança delirante típica de quem sempre foi calhorda, mas nunca foi descoberto. O tempo passa, a criatura se torna um mau-caráter de carreira e chega ao ponto de colocar qualquer princípio de sensatez no lixo. É o caso desses professores que, desrespeitando a ética, o bom senso, a idoneidade profissional e os regulamentos institucionais, flertam com alunos e alunas sem pudor algum.
Durante a minha faculdade fui vítima de assédio por parte de um professor. Algum tempo antes participei como estagiária da defesa de um Júri e meu chefe se indispôs com o promotor público. Eu estava adiantando a faculdade, bastante sobrecarregada e cursava a disciplina do sujeito no período noturno. Seguidamente nos estranhávamos, pois desde muito jovem eu fui inclinada ao garantismo: ser criminalista sempre foi uma vocação. Logo, o punitivista me sabotava como podia nas provas discursivas.
Por alguma razão da qual não me recordo eu deixei de fazer uma das provas para fazer a terceira, discursiva. Cruzei com o professor nos corredores do fórum e ele me disse para eu ir ao seu gabinete se desejasse ter uma boa nota e passar sem exame. Eu não fui, ele me deu uma nota ruim e eu enfrentei, pela primeira e única vez, a tal prova. O homem sabia que eu assinalava o meu Código, então o pegou e disse que havia cola. Fui até a coordenação, mostrei para o coordenador, ele viu que não havia, lastimou, mas respeitou a decisão do colega doidivanas.
Naquela época o machismo era ainda mais preponderante, encarar uma briga com tal criatura não estava nos meus planos. Enfrentei a raiva quieta e cursei a disciplina com outro professor, um senhor idoso que, coincidentemente, anos após, me indicou para um colega de Chapecó, onde eu residi por um tempo após me divorciar. Quando fui ao seu escritório para a entrevista precisei encarar uma proposta de “teste de sofá”. Senti ódio e muito nojo.
Mulheres vítimas de assédio, com frequência, sentem vergonha. Conversava sobre isso com uma cliente quinta-feira retrasada, antes da nossa audiência, ocorrida na sexta-feira pela manhã. Ela foi vítima de flerte por parte do psicólogo. O homem começou a jurar amor durante as sessões, lhe deu alta precoce e passou a flertar descaradamente no modo temporário de envio de mensagens no Instagram. Criatura rasteira, sem ética e sem profissionalismo como todas as que se valem da posição profissional para obter vantagens sexuais e assemelhadas.
Usar a posição hierárquica privilegiada para flertar é o cúmulo da perversidade egoísta. Há alguns dias eu tomei ciência de um professor homossexual que deu em cima de um aluno de uma das pós-graduações na instituição na qual eu também curso a pós-graduação. O mestrado e, principalmente, o doutorado, acentuam nossas inseguranças, sentimentos de insuficiência e ansiedade. Receber a atenção galante de um professor de sua área de pesquisa soou, acredito, como uma forma de aval intelectual em um momento atribulado.
Os alunos e as alunas não denunciam, pois sentem vergonha. Ademais, sabem que a corda arrebenta do lado mais fraco. O professor também sabe disso, então não teme. Age de forma egoísta, pois não se importa com a saúde mental e acadêmica dos alunos ou das alunas com quem estende o relacionamento para fora do campus ou, no caso específico, dentro, pois sempre existe um lugarzinho matoso para uns amassos.
É muito difícil para mim, mulher inteligente, mental e moralmente sã, compreender como se processa o desejo de uma criatura por quem, hierarquicamente no mundo acadêmico, está aquém dela. Não nego a minha atração por intelectuais, sempre tive, consequentemente, professores tendem a me atrair. Gosto de homens com mais conhecimento de vida do que eu, principalmente. Entretanto, como professora eu jamais ficaria com um aluno porque a possibilidade de haver segundas intenções no flerte fere de morte o meu interesse.
Logicamente, como toda pessoa no mundo, estou sujeita a essas coisas inexplicáveis da paixão. Eu mesma sofri por mais de dois anos com um acaso que nasceu para o ocaso. O homem nunca lecionou para mim, mas era professor, coincidentemente. O único defeito da nossa relação era o estado civil do vivente. Fui vítima de uma peça pregada pela vida em mim, a mulher que sempre teve ojeriza de investidas de homens comprometidos e foi vítima delas desde os 18 anos, pois antes dos casos narrados houve um advogado assediador.
Enfim, a idoneidade do relacionamento amoroso entre professor (a) e aluno (a) reside em seu caráter de excepcionalidade e no teor do arrebatamento: enamoramento afetivo e erótico por um aluno ou professor seria exceção em minha vida, assim como é para todos os professores e professoras decentes, porém, ter como regra o desejo por alunos e alunas e se valer do privilégio profissional para entabular relações íntimas com eles é algo grave e bastante doentio, indicia desejo narcísico de reverência e controle.