Cláudia de Marchi
A internet é para mim, frequentemente, uma forma de saber de coisas cuja existência me envergonha, eis o caso das bets, dessa horda de influenciadores digitais abomináveis e de seus seguidores tão idiotas e fúteis quanto os seus ídolos, da criatura verborrágica definida por um bando de néscios como “comediante” entre outras vergonhas.
Entre tais vexames tomei conhecimento de uma prefeita que publicou um vídeo rebolando (“dançando”) de biquini e causou alvoroço. Não li a matéria, tampouco assisti o fiasco, me contentei com a foto exposta na matéria e alguns comentários. Segundo alguns ela exerce boa gestão municipal e as críticas seriam decorrentes do machismo.
Discordo totalmente desta defesa, pois no meu caso eu acharia estapafúrdio se fosse um gestor público de sunga, empunhando copo de bebida alcóolica e rebolando para um vídeo postado em rede social fechada, como fez a tal mulher. Ah, “porque uma mulher pode ser mãe, trabalhadora e bonita”, li algo do tipo. É claro que pode, aliás, deve, me intriga, isto sim, a necessidade de exibição do corpo.
Sobre a burrice em publicar tal vídeo em rede social fechada na vã “crença” de que ele não fosse vazar, não me aprofundo, pois me parece evidente o anseio por tal vazamento: para mim uma pessoa minimamente inteligente saberia o risco ao qual se expôs e mais, não sentiria necessidade de expor os seus dotes estéticos na internet ignorando por completo o resultado das críticas para seus rebentos por meio de possível bullying na escola.
Certa vez escrevi um post dizendo o que penso sobre essas mulheres que malham com trajes minúsculos e uma amiga, recém “plastificada”, saiu em defesa dizendo ser a exibição uma forma de empoderamento ou algo do tipo e que se ela tivesse, desde sempre, um corpo dentro dos padrões também o faria. Respeitei, mas não compreendi e sigo sem compreender.
Muito raramente uso regatas justas para malhar, mas outro dia, apesar de amar roupas largas, usei e uma conhecida da academia me escreveu no Instagram dizendo que o meu corpo é lindo e, portanto, deveria ser mostrado com mais frequência, pois todos teriam reparado na beleza das minhas formas. Primeiramente, o corpo é meu e sei que ando extremamente linda pelada, logo não careço do aval alheio acerca dele e abomino os olhares masculinos, sempre abominei, desde adolescente, por isso gosto de me “esconder” em vestes largas no meu dia a dia.
De mais a mais, sou e sempre fui pela discrição. Para mim, por exemplo, barriga só se mostra na praia, short e saias curtas só se usam em local propício. A moda do cropped, para fazer exercícios físicos ou no uso cotidiano, é péssima, não valoriza ninguém: quem tem um corpo em forma fica deselegante quem não tem deixa à mostra o desnecessário. Por outro lado, eu uso biquínis que se assemelham a “tapa sexo” para combinar a marquinha com o mísero tamanho das minhas calcinhas.
Certamente Freud deve explicar essa necessidade de exibição corporal que, até onde eu sei, é típica de pessoas com transtorno de personalidade histriônica. A prefeita reboladora deu um belo susto no bom senso e se defendeu atacando os comentários como sendo machistas. Embora alguns tivessem tal ordem, para mim, no aspecto geral, não se tratou disso, mas da inadequação do comportamento de quem comanda o Executivo de uma cidade.
Fui fazer uma audiência semana retrasada em Santa Maria e fiquei sabendo de uma bolsista de pós-graduação na área da saúde da UFSM que é trabalhadora sexual virtual e vem respondendo a um processo administrativo pela função desempenhada por conta do alto rendimento de seu trabalho. A mulher se diz vítima do machismo e do fato de ser profissional do sexo. Sei de caso semelhante em Porto Alegre, inclusive.
No caso da acadêmica santa-mariense existem posts em suas redes sociais exibindo aquisição de imóvel e carro, além de outros luxos. Ostenta orgulhosa o número de seguidores na plataforma de conteúdo adulto que, como quase todos devem saber, é fonte de alta renda para quem faz da exibição corporal e do sexo um ofício.
Onde residiu a burrice da estudante? Não, certamente não foi em monetizar seu gosto pela exibição, mas em, sendo bolsista integral, publicar suas aquisições financeiras. Bolsas, mormente em instituições públicas, são destinadas a quem precisa delas, comumente pessoas desprivilegiadas além, claro, das beneficiárias das cotas raciais. Alguém realmente necessitado foi preterido para a moça bem-sucedida na arte do sexo virtual receber a sua benesse.
O argumento vitimista acerca da “putafobia” e do machismo é descabido neste caso no qual a conduta da mulher foi de encontro a sensatez e ao bom senso. Foi vítima da esdrúxula necessidade de ostentar suas realizações como se, não o fazendo, elas não existissem. Triste quadro da geração das redes na qual posts valem mais do que currículo e declaração de imposto de renda.
Neste domingo uma colunista da Folha de S. Paulo escreveu sobre um desabafo da apresentadora Fernanda Lima em algum podcast sobre o sexo não estar sendo fácil em seu casamento por causa da correria da vida. O difícil corresponde a escassez. Na postagem do jornal havia vários comentários, muitos cômicos, sobretudo os atinentes ao fato da relação perfeita não ser tão perfeita, entretanto, qualquer pessoa minimamente inteligente sabe disso.
Eis um caso de exposição desnecessária da intimidade. A saúde de um casamento se mede sim com a frequência sexual. Por mais corridos que sejam os dias, num bom relacionamento, ainda que longevo, a entrosada de pernas, o abraço da conchinha, gera desejo e ele se consuma com o sexo. Não precisa ser ultra ardente, mas há de haver ânimo erótico!
Claro que, ao longo dos anos, a paixão dos primeiros momentos pode arrefecer, mas a perda do desejo sexual não. E a correria da vida não é justificativa, ou seja, a gaúcha expôs a si e ao marido de forma leviana sem necessidade alguma. Ela, como as mulheres citadas, se tornou vítima de exibição desnecessária, no caso, não do corpo ou das suas realizações financeiras, mas do seu casamento.
Todas e todos podem expor o que desejarem em entrevistas, em redes sociais e outras formas de publicização da própria vida, eu mesma me tornei cortesã sem esconder nem meu nome, pois nunca senti vergonha, pelo contrário, tinha orgulho e por isso meu nome correu o mundo, entretanto é preciso assumir o ônus da exposição consubstanciado no julgamento alheio. Juízo quase sempre equivocado, mas sempre existente, pois como disse Friedrich Nietzsche, “o homem é, antes de tudo, um animal que julga”.
Ações têm reações. Se pode expor tudo ciente de que os outros julgarão e podem intervir, no caso específico da bolsista profissional do sexo, administrativa e até judicialmente. Quando resolvi me dedicar a minha vida acadêmica com foco numa bolsa integral abdiquei da minha vida de cortesã, pois acho imensamente injusto ter bom rendimento e pleitear uma bolsa com remuneração.
Estar apaixonada por um homem também me propulsou a desistir, mas o anseio pela construção de nova e bela fase pesou, igualmente, com força. Não se pode ter tudo, a vida ensina. Não se pode ser prefeita e ter uma crise de prostituta barata em vídeo vulgar na internet, não se pode ser prostituta endinheirada e bolsista integral em universidade pública. Ou melhor, pode, claro que pode, mas também deve suportar as críticas e demais revezes com a mesma coragem com a qual se exibiu.