Cláudia de Marchi
Homens são, em sua maioria, seres bastante medíocres, infantis e vulgares. Essa maioria é homoafetiva: gosta de ter sexo com mulheres, mas não as admira e detesta aquelas que se opõem, sem medo de perder o seu apreço ou companhia, às suas limitações idiotas. Existem homens nutridores de medo e raiva de mulheres que expressam seus pensamentos e sentimentos.
Para tais bípedes falta terapia e, claro, uma boneca hiper-realista que não diz nada, apenas fornece o esperado por eles das mulheres em suas vidas: corpo e silêncio. Eu não sei contar quantas vezes eu me senti falando sem ser ouvida nessa minha vida. E quase todas elas foram dentro de relacionamentos afetivos e familiares.
Não ser ouvida dói e mais, mata. Mata nossa vontade de falar. Mata nossa vontade de auxiliar, mata nossa vontade de estar onde quer que estejamos. Mata nosso ânimo, mata nossas boas crenças, mata nossa esperança, afinal ninguém vive sem ser ouvida. Falar e ser ignorada cansa e nenhuma pessoa com um pingo de autoestima cria apego pelo cansaço.
Como boa parte dos homens em relação às mulheres, eu não gosto da imensa maioria deles, me apetece, apenas, — pois orientação sexual não é opção, — ter sexo com eles. Eu desprezo a sua vaidade, o seu orgulho e a arrogância, estes disfarces capengas de seus egos frágeis; odeio a infantilidade das suas atitudes, suas piadas de mau gosto e seu hábito de menosprezar as mulheres.
Tenho asco, sobretudo, da mania masculina de categorizar as mulheres de acordo com a sua aparência física. Já repararam que, quase sempre, ao contar uma história na qual existe uma mulher, os homens as definem como feias, bonitas, gordas, másculas, “gostosas” e etc.? A maioria dos machos não consegue falar de uma mulher sem referir-se à sua aparência. Podem eles ser desleixados, podem seus corpos serem assimétricos e deselegantes: eles julgam a aparência das mulheres mesmo quando não há necessidade alguma.
Os machos sentem-se confortáveis para criticar os corpos femininos inadequados ao seu gosto, da mesma forma que se sentem no direito de escolher qual mulher merece o seu respeito e qual não merece. Eles estão sempre aptos a desqualificar o corpo feminino como se fossem seres detentores de inteligência atípica, donos de intelectualidade admirável e de mentes dotadas de raro equilíbrio, além de um falo talentoso e muito acima da média, tudo isso, claro, num corpo com a aparência física do Brad Pitt quando interpretou Aquiles no filme Tróia, em 2004.
Bem, eu e uma amiga já conjeturamos que, pegando partes de vários homens se constrói um sujeito razoável: o humor de um, o cérebro de outro, o intelecto de um, o corpo de outro, a potência sexual de um, as partes íntimas de mais algum e a inteligência emocional de rara criatura e, voilá: tem-se um homem aprimorado. Obviamente, tal ser apresentará vícios redibitórios, pois o ego inflado e a autoestima delirante virão à tona. Não se pode esperar o oposto de quem foi feito com pedaços de seres incompletos que, apesar da incompletude, se sentem plenamente magníficos.
Certa vez um homem com quem me relacionei me contou que a ex-companheira de um aluno, quando começou a faculdade, anos antes, deu em cima dele. “Até que ela era uma ‘mulher interessante’”, ele me disse, mas a dispensou, pois era casado, além de ser demasiadamente “ético”. A idade da guria na época? Dezenove anos. Quando uma professora universitária definiria um aluninho de dezenove anos como “interessante” para um namorado? Nunca, provavelmente. Ainda que o achasse esteticamente agradável, jamais cometeria a deselegância vulgar de falar isso em voz alta.
Eu já tive vinte anos e gostava dos quarentões em tal período. Época na qual, além de ter menos libido, eu era insegura e tinha parca experiência: um Fusca equivalia a uma Ferrari de alta potência para mim. Os etaristas não valorizam, necessariamente, a aparência da mulher jovem, o que os encanta é o deslumbramento, porque, além de ser mais insegura, ela não tem potência financeira e, dificilmente, diz o que gosta ou não gosta, na cama e fora dela.
As mocinhas ainda não aprenderam que homens são seres comumente ególatras cujo ego não merece afago. Tecer-lhes elogios sinceros? Sim, com afeto e quando merecidos. Porém, igualmente, falar tudo o que avilta. Inventei um aforismo claudiademarchiano sobre isso, baseado em alguma piada machista escrota: “O ego masculino não deve ser poupado, pois se você não sabe o porquê de estar pisoteando, o macho sabe porque está sendo pisoteado.”
Existem homens ansiosos para destruir as mulheres. E isso não se faz unicamente por meio da agressão física, verbal e do feminicídio, mas, dentro dos relacionamentos, pelo desdém, pela falta de escuta empática, pela negligência, pela superestimação de si e do seu tempo em detrimento do da parceira, e, claro, pelo silenciamento.
A destruição se faz, também, com ofensa destinada ao amor-próprio feminino evidenciado através da manifestação contrária aos atos masculinos desrespeitosos ou desagradáveis. Trata-se, frequentemente, da projeção: eles são ególatras e projetam na mulher o que não admitem para si. Para reforçarem o seu autoconceito, enfim, alguns homens precisam destruir a autoestima feminina e, com isso, destroem a sua saúde mental, elemento vital para qualquer pessoa.
A filósofa estadunidense Marilyn Frye, pesquisadora nos âmbitos do sexismo, racismo, opressão e sexualidade, abordou em seu livro Políticas da Realidade: Ensaios sobre Teoria Feminista, de 1983, a questão de a cultura heterossexual masculina ser homoafetiva, uma vez que cultiva o amor pelos homens, afinal nela “tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens héteros reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam; idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam; estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens.”