“Último Tango em Paris” e a história de Maria Schneider ganham nova perspectiva em filme biográfico

Mais de cinquenta anos após sua estreia, o filme “Último Tango em Paris” (1972) ainda gera debate por conta de uma de suas cenas mais controversas: o momento conhecido como “cena da manteiga”, protagonizado por Maria Schneider e Marlon Brando. A sequência, não prevista no roteiro, foi realizada sem o consentimento prévio da atriz, então com 19 anos, e teve consequências duradouras para sua vida pessoal e profissional.

O episódio volta ao centro da discussão com o lançamento do filme “Meu nome é Maria”, dirigido por Jessica Palud e baseado no livro de memórias da jornalista Vanessa Schneider, prima de Maria. A produção retrata a trajetória da atriz, desde sua origem familiar até o impacto psicológico e social sofrido após a estreia do longa de Bernardo Bertolucci.

Meu nome é Maria é baseado em um livro escrito por Vanessa Schneider, prima de Maria Schneider/Foto: Kino Lorber

A cena que mudou tudo

De acordo com relatos da própria Maria Schneider, a ideia para a cena partiu de Marlon Brando, e o diretor Bernardo Bertolucci optou por não informar a atriz com antecedência. Ela afirmou ter se sentido “humilhada” e “um pouco estuprada”, tanto pelo ator quanto pelo diretor. Na época, Schneider não tinha consciência de que poderia se recusar a participar da cena, nem contou com apoio profissional no set.

A diretora Jessica Palud optou por reencenar a sequência em “Meu nome é Maria”, mas pela perspectiva da atriz. A abordagem incluiu o uso de um coordenador de intimidade, profissional que atua como mediador em cenas de nudez e sexo, prática cada vez mais comum após o movimento #MeToo.

A atriz Anamaria Vartolomei, que interpreta Maria Schneider, afirmou ter se sentido protegida durante as filmagens, mas ainda assim classificou a experiência como emocionalmente intensa. “Essa cena foi realmente violenta. Não consigo imaginar o que foi para Maria, pois ela sentiu isso de verdade”, disse.

Schneider afirmou em entrevistas que, na época das filmagens, não entendia todo o conteúdo sexual do filme

Consequências e legado

O lançamento de “Último Tango em Paris” foi um sucesso de bilheteria e crítica. Bertolucci e Brando receberam indicações ao Oscar. Schneider, por outro lado, recebeu um cachê muito inferior ao dos colegas e passou a enfrentar dificuldades com a fama e a exposição pública. Em entrevistas posteriores, ela relatou ter recorrido a drogas como forma de fuga.

Ao longo da carreira, Schneider participou de mais de 50 filmes, incluindo “Profissão: Repórter” (1975), de Michelangelo Antonioni, ao lado de Jack Nicholson, mas sempre foi lembrada principalmente por “Último Tango em Paris”. Ela faleceu em 2011, vítima de câncer, aos 58 anos.

Schneider morreu de câncer em 2011, aos 58 anos

Revisão histórica

A história de Maria Schneider é agora recontada com mais atenção à sua perspectiva. A diretora Jessica Palud e a atriz Anamaria Vartolomei destacam a importância de revisitar os chamados “clássicos” com um olhar mais crítico. “Naquela época, Maria falava, mas não era ouvida”, disse Palud.

A discussão sobre o legado de diretores como Bertolucci e o tratamento dado a atrizes jovens em contextos de poder e vulnerabilidade também tem sido retomada. Em 2016, um vídeo de entrevista de Bertolucci, no qual ele admite ter omitido detalhes da cena para garantir uma reação “real” de Schneider, gerou nova onda de indignação.

Schneider, Brando e Bertolucci no set de filmagem de Último Tango em Paris

“Meu nome é Maria”: uma nova escuta

O filme “Meu nome é Maria” busca apresentar um relato mais completo da experiência de Maria Schneider. A cineasta afirma que o objetivo não foi julgar, mas expor o sistema que permitiu situações como a vivida por Schneider. “Acho que agora, finalmente, podemos ouvir sua voz”, afirmou Vartolomei.

Fonte: Emma Jones/BBC Londres