Viva aos relacionamentos sólidos!

Cláudia de Marchi

Recentemente, o Facebook me lembrou de algumas das matérias internacionais que me noticiaram após o meu sucesso na Folha de S. Paulo. No Reino Unido foram o The Sun, Mirror, Daily Mail e Daily Star, também fui notícia no Siri Lanka, no México e na Bélgica, posteriormente na Espanha, Itália e em países cujos idiomas eu desconheço. Todos falaram que sexo era o que eu tive de melhor em meus relacionamentos passados. E era, fui eu mesma quem disse que, como cortesã, eu queria lucrar para experienciar a “cereja do bolo” dos meus romances pretéritos, o único espaço no qual nenhum me decepcionou.

Tais matérias e o auge da minha fama vigoraram desde o G1, em 2016, após, em 2017, com essas matérias e seguiu até meados e fim de 2019. Posteriormente, com a pandemia e consequente retorno meu ao Rio Grande do Sul, fui me afastando dos meus parceiros e mudando o foco da minha vida. Cheguei em Passo Fundo, cursei um semestre de História no inverno de 2020, entrei no mestrado no começo de 2021 e fui me reaproximando da vontade de amar de novo. Eu havia esquecido como essas coisas do coração prescindem de explicação, eis um fato.

Quase (quase?) enlouqueci tentando buscar os porquês de algo inexplicável. Se a vida tivesse me permitido investir o meu foco unicamente em minha vida acadêmica eu estaria no fim da minha tese no doutorado da PUCRS e já estaria dando andamento na tese em Estudos da Linguagem, na UFRGS, porém, o meu músculo involuntário chamado coração resolveu bater por um homem e, desde então, a minha vida ficou caótica. Há um livro com este nome como testemunha disso.

Recentemente, entrei em estafa de homens, uma espécie de “machofobia”. O egoísmo, a megalomania, a distração, a desatenção, os traumas não superados, as relações entabuladas e pessimamente resolvidas com a ex, a falta de maturidade e de consciência de si, tudo isso me causou imenso enfado. Da minha apetência sexual avantajada eu mesma cuido, conhecer homens novos não é um objetivo, aliás, o meu sonho é “desconhecer” alguns dos antigos.

Vejo nas redes sociais a moda do “ficar” e fico estarrecida! Eu não sei o que é ter “ficante”, nunca soube. Para mim os locais de homens ao longo da minha vida foram três: namorado, marido e parceiros remunerados. Tive dois noivos também, mas, felizmente, eu não me casei com eles. Todavia, no ano passado, além do sujeito casado com o qual continuei após deixar de ser cortesã, estive, sexualmente, com um que eu admirava pela honestidade, humor, inteligência e dotes culinários, além de outros dons artísticos. Entretanto, não estabelecemos uma relação com presença na vida um do outro, ainda que virtual.

Se nos encontrássemos com frequência haveria dois caminhos comigo: namoro, enfim, uma relação séria com exclusivismo sexual ou nada, absolutamente nada. Nunca em minha vida eu aceitaria ser uma das opções de um homem que, me conhecendo mais profundamente e me encontrando com frequência, não deseja uma relação séria comigo. Apesar de eu ser imensamente divertida levo os meus relacionamentos pessoais com seriedade plena.

Relacionamentos de qualquer ordem são construções e elas requerem empenho. Acreditar que o amor não requer dedicação é como crer na “metade da laranja”, ou seja, na existência de uma comunicação anímica perfeita, na existência de um sentimento que, por si só, basta para a relação fluir colorida. Enfim, é um devaneio, um sonho de uma noite de verão, nas palavras de um desses políticos sujos cuja existência é e sempre foi desnecessária.

Amar não é trabalhoso, cultivar o amor é, construir uma relação sólida e feliz requer trabalho. E por aí existe uma trupe, tanto de mulheres como de homens, solitária e disfuncional, se ocupando em demasia, agindo como misantropa e chamando a sua covardia, o medo de se decepcionar e o medo da rejeição, de “agenda cheia”. Covardes não são, unicamente, as pessoas que mantêm casamentos parcamente satisfatórios com medo de encarar a vida sozinhas, há uma gama de gente solteira e divorciada acovardada e bastante infeliz. Ademais, a misantropia cai muito mal em quem não tem a genialidade de Glenn Gould.

Parte do meu superado caos se deve ao fato de eu ser uma mulher sólida no mundo dos relacionamentos líquidos, porém eu nunca fui normal e nem ambiciono ser, aliás, ser adequada nunca foi a minha intenção neste universo cheio de hipocrisia e amargor. Tenho uma cartilha pessoal e íntima de princípios e formas de agir. Sexo casual, por exemplo, longe do caso citado e ocorrido em 2024, é algo que eu só fazia cobrando caro, bem caro.

Cá estou, no auge da minha beleza corporal, ciente de que não desperdiço e nem nunca desperdiçarei as minhas lindas e definidas curvas com macho problemático que nem se conhece direito porque passa a vida fugindo do necessário autoconfronto. Em minha duríssima derrière nenhum colocará a mão, mas eu coloco e “uau, que gostosa, tem mais é que ser celibatária mesmo!”

Referência:

FOLHA DE S. PAULO. História de advogada que virou acompanhante de luxo em Brasília ganha destaque na imprensa internacional. Folha de S. Paulo. São Paulo. 4 mar. 2017. Disponível em: https://f5.folha.uol.com.br/voceviu/2017/03/historia-de-advogada-que-virou-acompanhante-de-luxo-em-brasilia-ganha-destaque-na-imprensa-internacional.shtml. Acesso em 28 mai. 2025.